18/02/2026, 05:01
Autor: Ricardo Vasconcelos

Um novo relatório expõe o uso de tecnologia israelense pelo governo queniano para invadir e monitorar os telefones de ativistas locais, levando a um aumento preocupante da repressão e da violação dos direitos humanos no país. Essa ação se encaixa em um padrão crescente de autoritarismo que tem permeado a administração atual desde sua eleição em 2022, onde a corrupção e a má gestão de recursos se tornaram cada vez mais evidentes.
Segundo os relatos, a tecnologia de vigilância fornecida por Israel não só facilita a invasão da privacidade dos cidadãos, mas também é utilizada como um instrumento de controle sobre vozes dissidentes. Isso gera um clima de medo entre aqueles que lutam por justiça e liberdade no Quênia. Com um aumento significativo em sequestros e desaparecimentos forçados, a situação se torna ainda mais alarmante. Activistas afirmam que o governo queniano se uniu a regimes autoritários da região, como os de Uganda e Tanzânia, formando uma "trindade maligna" para silenciar opositores.
A repressão culminou em protestos realizados pela Geração Z em 2024, que se opuseram ao aumento dos impostos por parte do governo. Este descontentamento popular se manifestou em atos de vandalismo, como a invasão do Parlamento. Os ativistas, que buscam transparência e responsabilidade dos governantes, se sentem cada vez mais perseguidos. Um exemplo notório é o caso do ativista queniano que foi torturado e agredido na Tanzânia, enquanto outro, Bob Njagi, ficou desaparecido por semanas na Uganda. Esses eventos evidenciam os riscos enfrentados pelos que fazem oposição ao governo.
Adicionalmente, observadores internacionais têm criticado o governo queniano por suas ações, como a ajuda ao sequestro do líder da oposição ugandense, Kizza Besigye. A repatriação forçada de líderes da oposição para que não comparecessem a eventos significativos, como o funeral do antigo primeiro-ministro Raila Odinga, sublinha a violação das regras de livre circulação estabelecidas pela Comunidade da África Oriental (EAC).
A liberdade de expressão no Quênia também está ameaçada. Em 2025, o governo da Tanzânia desligou a internet durante as eleições, resultando em abusos sistemáticos que afetaram os apoiadores da oposição. O Uganda fez o mesmo durante o pleito deste ano. Com as eleições presidenciais se aproximando no Quênia, em 2027, a população teme o que poderia ocorrer sob a liderança de William Ruto, que já foi acusado de crimes contra a humanidade durante os tumultos eleitorais de 2007 e 2008, mas nunca responsabilizado adequadamente. Há um medo crescente de que medidas ainda mais extremas possam ser tomadas para assegurar sua permanência no poder, aumentando as tensões e o clima de insegurança.
Comentários de cidadãos e líderes de pensamento revelam uma crescente insatisfação com a corresponsabilidade dos governos na repressão de seus próprios cidadãos. Um comentário sugere que o que ocorre no exterior eventualmente volta, uma observação feita pelo poeta e político Aimé Césaire, que falou sobre como a opressão em uma parte do mundo reflete e impacta em outras regiões. Este pensamento ressalta a interconexão das lutas globais pela dignidade e liberdade e como a complacência face à opressão pode ter repercussões diretas em democracias ao redor do mundo.
Os cidadãos quenianos expressam sua preocupação com as técnicas de controle social sendo importadas de outros países e utilizadas contra eles mesmos. Este sentimento é reforçado por percepções generalizadas de que a única contribuição de Israel para a arena global vem na forma de inovação tecnológica para opressão em vez de soluções construtivas para problemas sociais e políticos.
A responsabilidade do governo em proteger seus cidadãos segue em pauta, uma expectativa que tem sido cada vez mais ignorada por administrações que optam pela repressão em vez do diálogo. A dependência da tecnologia estrangeira para controlar os direitos individuais desperta um debate importante sobre os limites da soberania nacional diante do avanço da cooperação tecnológica em contextos autoritários.
A crescente insatisfação social combina-se com uma crise de legitimidade, à medida que a população se mobiliza contra a corrupção e a falta de transparência, exigindo uma mudança significativa na forma como o governo se relaciona com seus cidadãos. O futuro do ativismo no Quênia mostrado neste relatório pode ser apenas o começo de uma onda de resistência em resposta à crescente repressão, um sinal de que o desejo de liberdade e justiça prevalece mesmo diante da opressão mais sistemática. Com a continuação da vigilância e a repressão sistemática de vozes dissidentes, os próximos meses serão cruciais para o destino da democracia no Quênia e a luta por direitos humanos na África Oriental como um todo.
Fontes: The Guardian, Al Jazeera, Human Rights Watch
Resumo
Um relatório recente revela que o governo do Quênia está utilizando tecnologia de vigilância israelense para monitorar e invadir a privacidade de ativistas, intensificando a repressão e a violação dos direitos humanos no país. Desde a eleição de 2022, a administração tem demonstrado um padrão de autoritarismo, corrupção e má gestão. A tecnologia é utilizada para controlar vozes dissidentes, gerando um clima de medo entre aqueles que lutam por justiça. Protestos da Geração Z em 2024, motivados pelo aumento de impostos, resultaram em atos de vandalismo e perseguições a ativistas. Observadores internacionais criticam o governo por suas ações, incluindo o sequestro de líderes da oposição. Com as eleições de 2027 se aproximando, há preocupações sobre a possibilidade de medidas ainda mais severas sob a liderança de William Ruto, que já foi acusado de crimes contra a humanidade. A insatisfação popular e a crise de legitimidade do governo indicam que a luta por liberdade e justiça no Quênia pode estar apenas começando, em um contexto de crescente repressão.
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