31/12/2025, 19:20
Autor: Laura Mendes

Em um panorama demográfico que tem gerado preocupações ao longo das últimas décadas, a Coreia do Sul apresenta um alívio temporário com o anúncio de que a taxa de natalidade aumentou pelo 16º mês consecutivo, em outubro de 2023. Mesmo assim, o país ainda enfrenta o desafio de taxas de fertilidade que permanecem em níveis alarmantemente baixos, com uma média de 0,83 nascimentos por mulher, muito aquém da taxa de reposição populacional de 2,1 nascimentos. Essa situação levanta importantes discussões sobre os fatores que influenciam suas drásticas dinâmicas demográficas e o impacto que isso pode ter no futuro da nação.
Os números recentes indicam um crescimento de 2,5% na taxa de natalidade em comparação ao ano anterior. Esse aumento é comemorado, mas soluções a longo prazo ainda são essenciais, dado que, mantidas as tendências atuais, o retorno à taxa de reposição está projetado para demorar cerca de 40 anos. Esses dados não apenas ressaltam as dificuldades históricas de aumento na natalidade, mas também expõem os gastos públicos cada vez maiores em serviços sociais, como assistência à saúde para a população idosa, que deverá somar até US$ 80 bilhões por ano até 2030.
Um fator que chama a atenção é a significativa intervenção governamental visando facilitar a vida das famílias. Entre os vários programas implementados, o governo sul-coreano tem promovido subsídios às famílias com crianças, que incluem suporte financeiro para creches, empréstimos facilitados, além de melhorias na alimentação escolar. Essas iniciativas respondem a uma necessidade urgente, dada a crescente pressão econômica sobre as famílias e a mudança nas prioridades em relação ao trabalho e à criação de filhos.
Entretanto, o cenário não é simples. As mulheres sul-coreanas, muitas vezes altamente educadas, ainda enfrentam barreiras estruturais que podem desencorajar a maternidade. Mudanças nas expectativas sociais e no papel que homens e mulheres desempenham dentro das famílias podem influenciar profundamente a disposição para ter mais filhos. Observações em comunidades que mantêm altos níveis de natalidade, como os Haredim em Israel, revelam que o empoderamento feminino, dentro de certas estruturas sociais, pode afetar diretamente essas decisões, podendo desacelerar a redução populacional.
Além disso, os custos elevados de vida e a competição no mercado de trabalho promovem um ciclo vicioso onde muitos casais optam por adiar a paternidade ou limitar o número de filhos. Ao longo das últimas duas décadas, a Coreia do Sul viu os custos de saúde per capita crescerem significativamente, passando de US$ 475 em 2000 para impressionantes US$ 3.270 atualmente. Este aumento ressalta as dificuldades enfrentadas por pais, que frequentemente precisam equilibrar o cuidado com filhos e as exigências de uma carreira cada vez mais competitiva.
A intersecção entre políticas públicas e fatores culturais é central para entender as dinâmicas demográficas da Coreia do Sul. Embora o governo esteja implementando programas para apoiar as famílias, muitos especialistas acreditam que é fundamental abordar as normas sociais que ainda persistem. O crescente número de debates sobre esses temas sugere que a sociedade sul-coreana está em um ponto de inflexão; em um contexto em que, por um lado, a taxa de natalidade parece finalmente estar subindo, por outro, as estruturas de apoio social ainda estão se adaptando.
Nas conversas em torno desse tema, vozes que se manifestam sobre a maneira com que comunidades específicas, como os Haredim, experimentam altas taxas de fertilidade em suas culturas, colocam em evidência como a interação social, religiosidade e apoio comunitário possuem um impacto significativo nas decisões de procriação. Essa interação é complexa, e revela uma faceta do que impulsiona a natalidade que nem sempre é captada em estatísticas frias.
Além do aspecto da taxa de natalidade, a sustentabilidade das políticas de saúde e os gastos crescentes com a população envelhecida constituem outro dilema. Com as projeções indicando que a carga de cuidados médicos continuará a subir, o governo sul-coreano enfrenta o desafio de equilibrar a sustentabilidade financeira com as crescentes expectativas sociais sobre suporte familiar e assistência à saúde.
Assim, enquanto o aumento da taxa de natalidade pode ser um sinal encorajador, aprofundar as discussões sobre a dinâmica familiar, os custos associados e as barreiras culturais permanece crucial para moldar um futuro demográfico satisfatório e sustentável para a Coreia do Sul. O que está em jogo é mais do que mero crescimento populacional; trata-se da formação de uma sociedade que valoriza e apoia a família em suas múltiplas formas, garantindo um futuro mais promissor para as próximas gerações.
Fontes: The Korea Times, The World Bank, Ministério da Saúde e Bem-Estar da Coreia do Sul.
Resumo
A Coreia do Sul registrou um aumento na taxa de natalidade pelo 16º mês consecutivo em outubro de 2023, com um crescimento de 2,5% em relação ao ano anterior. No entanto, a taxa de fertilidade permanece alarmantemente baixa, com uma média de 0,83 nascimentos por mulher, muito abaixo da taxa de reposição populacional de 2,1. O governo sul-coreano tem implementado programas de subsídios e apoio financeiro para famílias, mas as barreiras estruturais e culturais ainda desencorajam a maternidade. As mulheres altamente educadas enfrentam desafios que dificultam a decisão de ter filhos, enquanto os altos custos de vida e a competitividade no mercado de trabalho levam casais a adiar a paternidade. Embora o aumento da taxa de natalidade seja um sinal positivo, especialistas alertam que é fundamental abordar normas sociais persistentes e garantir a sustentabilidade das políticas de saúde para um futuro demográfico equilibrado.
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