03/01/2026, 11:04
Autor: Ricardo Vasconcelos

Em meio à crescente instabilidade política na Venezuela, a União Europeia (UE) tomou uma posição firme, declarando o governo de Nicolás Maduro como ilegítimo e clamando por moderação em relação às ações que possam ser tomadas na busca de uma solução para a crise no país sul-americano. A situação na Venezuela se deteriorou ao longo dos anos, com um colapso econômico, agitações sociais e disputas políticas intensas, levando muitos a questionar a viabilidade da liderança de Maduro e a necessidade de intervenções externas.
A declaração da UE revela a profundidade da polarização que permeia a sociedade venezuelana. Comentários recentes sobre a crise evidenciam que, embora Maduro tenha sido amplamente criticado por sua autoridade e gestão, muitos venezuelanos ainda veem sua remoção como um ato de imperialismo, associado às intervenções históricas de potências estrangeiras em assuntos internos de países soberanos. Muitas vozes locais alertam que, apesar da percepção externa de que a saída de Maduro traria alívio, a realidade é bem mais complexa, com profundas divisões sociais e políticas perpetuadas que datam da era de Hugo Chávez, seu predecessor.
Historicamente, Chávez chegou ao poder em 1999 através de eleições legítimas, mas seu governo era visto como uma resposta às desigualdades que dividiam a sociedade venezuelana. A ascensão de seu governo foi alimentada pelo descontentamento de parcelas significativas da população, que se sentiam abandonadas por um sistema que favorecia a elite rica. Contudo, a retórica revolucionária e o populismo de Chávez não resolveram os problemas estruturais do país, e a continuidade desse legado sob Maduro levou a um estado de falência institucional e econômica. Hoje, a Venezuela é uma nação marcada pela desconfiança mútua entre classes sociais, onde muitos se opõem a figuras como María Corina Machado, que representa uma elite um tanto quanto desconectada do povo.
Diante desse cenário conturbado, a intervenção de forças externas, como foi o caso dos Estados Unidos, gera reações ambíguas. Para muitos de dentro e fora da Venezuela, a figura de Maduro, apesar de ele ser inequivocamente impopular, ainda é vista como um símbolo da resistência contra a interferência imperialista. A recente declaração da UE, que considera a ação militar ou de suporte a uma frota de alternativas, não está isenta de críticas. Há quem veja isso como um reflexo da hipocrisia que permeia a política internacional, onde ações em regiões como a Ucrânia recebem mais atenção do que as ocorrências na Venezuela.
Expertos e analistas afirmam que a questão da legitimidade de um governo é complexa e não pode ser reduzida a simples narrativas de bem e mal. O desafio agora não é apenas um debate moral sobre a legitimidade, mas a necessidade emergente de unir um país que foi marcado por uma governança autocrática e que viu interesses estrangeiros conflitantes moldarem seu destino. Ironias da história colocam a Venezuela em um cenário semelhante ao de outros países que vivenciaram intervenções que desestabilizaram ainda mais suas estruturas sociais e políticas. Desde a queda de regimes considerados tirânicos até o eventual vazio de poder que isso eventualmente gera, a história parece se repetir.
Os venezuelanos agora enfrentam um futuro incerto. Apesar da esperada felicitação pela saída de Maduro, a ausência de um consenso nacional e a falta de uma solução orgânica para os problemas estruturais que o país enfrenta fazem com que muitos temam que a transição para um governo "legítimo" e estável possa estar longe de ser alcançada. Com o colapso das instituições e a falta de um ideal cívico comum, a violência institucional e a polarização social podem potencializar a crise, resultando em um ciclo vicioso de crises políticas que perpetuam a incerteza e o sofrimento humano.
No centro desse turbilhão, a Venezuela continua a ser um microcosmo das tensões geopolíticas contemporâneas, onde os imensos desafios internos se entrelaçam com as dinâmicas de poder internacionais. Enquanto a UE busca estratégias diplomáticas, a solidariedade e a unidade do povo venezuelano se tornam cruciais para um futuro pacífico e autossustentável. O caminho à frente é repleto de complexidades, e a verdadeira reconstrução da Venezuela depende mais da vontade popular do que de intervenções externas.
Fontes: Folha de São Paulo, O Globo, Estadão
Detalhes
Nicolás Maduro é um político venezuelano que se tornou presidente da Venezuela em 2013, após a morte de Hugo Chávez. Ele é membro do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e tem enfrentado críticas internacionais e locais por sua gestão econômica e autoritarismo. Seu governo é marcado por uma grave crise humanitária e econômica, além de alegações de violações de direitos humanos. A sua administração é vista como ilegítima por muitos países e organizações internacionais.
Hugo Chávez foi um militar e político venezuelano que serviu como presidente da Venezuela de 1999 até sua morte em 2013. Ele fundou o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e implementou uma série de reformas sociais e econômicas conhecidas como "Revolução Bolivariana". Chávez é lembrado por sua retórica antiimperialista e por buscar reduzir as desigualdades sociais, embora seu governo também tenha sido criticado por autoritarismo e corrupção.
Resumo
A União Europeia (UE) declarou o governo de Nicolás Maduro como ilegítimo, pedindo moderação em relação às ações para resolver a crise na Venezuela, que enfrenta um colapso econômico e agitações sociais. A polarização da sociedade venezuelana é evidente, com muitos considerando a remoção de Maduro como uma forma de imperialismo, apesar de sua impopularidade. A história política da Venezuela, marcada pela ascensão de Hugo Chávez em 1999, revela um legado de desconfiança entre classes sociais. A intervenção de potências externas, como os Estados Unidos, gera reações ambíguas, e a legitimidade do governo é um tema complexo. Os venezuelanos enfrentam um futuro incerto, com a falta de consenso nacional e soluções para os problemas estruturais, o que pode perpetuar a crise. A UE busca estratégias diplomáticas, enquanto a unidade do povo venezuelano é essencial para um futuro pacífico e autossustentável.
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