17/02/2026, 22:23
Autor: Ricardo Vasconcelos

O mercado imobiliário na China está enfrentando uma crise sem precedentes, com os preços das casas nas cidades de Tier-1 caindo em média 10% em relação ao seu pico, enquanto nas cidades de níveis dois e três, essa queda pode chegar a impressionantes 30%. Essa situação tem gerado preocupações significativas não apenas entre os consumidores, mas também em relação à saúde fiscal dos governos locais, que dependem fortemente da receita gerada pela venda de terrenos para equilibrar suas contas. Com quase 70% dos ativos das famílias chinesas vinculados a propriedades, essa diminuição no valor das casas está virtualmente dizimando as economias da classe média e, consequentemente, reduzindo o consumo em uma escala alarmante.
Em resposta a essa situação preocupante, Pequim fez declarações marcantes afirmando que o “modelo tradicional de mercado imobiliário”, caracterizado por alto endividamento e alavancagem, chegou ao fim. O Ministro da Habitação da China, Ni Hong, articulou que o futuro do setor imobiliário se concentrará em “habitação acessível”, com serviços aprimorados e uma tendência à estabilização dos preços. Esta nova abordagem propõe uma mudança de paradigma em um setor que historicamente representou um quarto do PIB da China e cerca de 15% da força de trabalho não agrícola.
Entretanto, a transição para um modelo mais sustentável está se mostrando desafiadora. O déficit fiscal dos governos locais, em combinação com a queda acentuada no investimento imobiliário, gera incertezas em relação ao pagamento de dívidas e outros compromissos financeiros. Enquanto a indústria imobiliária previamente floresceu com uma política de financiamento fácil, ela agora se vê obrigada a lidar com as consequências da financeirização excessiva, que muitos analistas já sentem ser uma das principais causas da crise atual.
Observadores alertam que a situação da habitação na China não é apenas um reflexo de uma bolha estourando, mas também um indício de uma mudança mais profunda nas expectativas econômicas e sociais. O estoque de casas vazias, por exemplo, levanta questões críticas sobre o uso e a necessidade de moradias, já que muitas dessas propriedades foram compradas como investimentos, e não como residências para cidadãos.
Com a queda dos preços, há um vislumbre de oportunidade surgindo para a parcela da população que ainda é inquilina, permitindo que aqueles que não podiam comprar antes comecem a considerar a aquisição de suas casas. Esse, segundo alguns analistas, pode ser um passo positivo para corrigir as desigualdades sociais no acesso à habitação, embora tenha havido críticas quanto à falta de uma verdadeira política de habitação que priorize as necessidades dos cidadãos em vez de atender aos interesses especulativos.
A taxa de natalidade da China, atualmente em 1,02 filhos por mulher, é nada menos que alarmante e já causa preocupação sobre o futuro da força de trabalho e, consequentemente, do mercado imobiliário. Com um desemprego entre recém-formados ultrapassando os 20%, muitos jovens enfrentam uma realidade de incertezas financeiras que torna a compra de imóveis uma possibilidade distante. Em uma sociedade onde possuir uma casa é muitas vezes visto como um símbolo de status, a incapacidade de alcançar este marco pode levar a um aumento da pressão social, particularmente entre os jovens adultos que aspiram a formar famílias.
Nesse contexto, é relevante observar que os preços imobiliários são, em última análise, influenciados por fatores fundamentais, como crescimento populacional e poder de compra. A China, portanto, poderá enfrentar um declínio em sua população nos próximos anos, colocando em dúvida a sustentabilidade desse mercado imobiliário a longo prazo. Conforme o governo tenta relaxar as políticas de crédito que alimentaram a bolha imobiliária, a esperança é que um modelo de desenvolvimento mais equilibrado possa surgir, equilibrando a prosperidade econômica com uma distribuição mais justa da riqueza e melhorando a qualidade de vida para seus cidadãos.
Diante desses desafios, a situação realça a necessidade urgente de políticas habitacionais transformadoras que visem não apenas a estabilização do mercado, mas também o fornecimento de moradia acessível para a crescente população urbana da China. A maneira como o governo e o setor privado responderem a essas questões nos próximos anos determinará o futuro do mercado imobiliário e a estabilidade econômica do país, o que pode servir de lição para outras nações que enfrentam dilemas semelhantes ao redor do mundo.
Fontes: The New York Times, Financial Times, Bloomberg
Resumo
O mercado imobiliário na China enfrenta uma crise significativa, com preços de casas em cidades de Tier-1 caindo em média 10% e até 30% em cidades de níveis dois e três. Essa situação gera preocupações sobre a saúde fiscal dos governos locais, que dependem da receita da venda de terrenos. Com 70% dos ativos das famílias atrelados a propriedades, a queda nos preços afeta as economias da classe média e o consumo. O governo chinês, por meio do Ministro da Habitação, Ni Hong, anunciou uma mudança para um modelo de "habitação acessível", visando estabilizar os preços e melhorar os serviços. No entanto, a transição é desafiadora devido ao déficit fiscal e à queda no investimento imobiliário. Observadores alertam que a crise não é apenas uma bolha estourando, mas reflete mudanças nas expectativas econômicas e sociais. A baixa taxa de natalidade e o alto desemprego entre jovens complicam ainda mais a situação, tornando a compra de imóveis uma meta distante. A necessidade de políticas habitacionais transformadoras é urgente para estabilizar o mercado e garantir moradia acessível.
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