17/02/2026, 22:47
Autor: Ricardo Vasconcelos

Em um momento de crescente discussão sobre a automação e uso da inteligência artificial (IA) no local de trabalho, um estudo publicado recentemente pelo National Bureau of Economic Research (NBER) trouxe à tona uma revelação surpreendente: a maioria dos CEOs, diretores financeiros e outros executivos de empresas não vê impacto significativo da IA em suas operações em termos de produtividade e emprego. A pesquisa, que abrangeu cerca de 6.000 executivos em quatro países, revelou que, embora aproximadamente dois terços dos entrevistados relatem utilizar IA, esse uso se limita a cerca de 1,5 horas por semana. Adicionalmente, 25% dos participantes afirmaram que não utilizam a IA em seus trabalhos diários, e quase 90% das empresas indicaram que a tecnologia não teve efeito tangível na criação ou eliminação de vagas de trabalho nos últimos três anos.
Esses dados suscitam uma reflexão sobre o papel da IA nas empresas contemporâneas e o impacto real dessa tecnologia que tem sido amplamente debatido e até mesmo idolatrado como a solução definitiva para a eficiência corporativa.Comentários de profissionais de diversas áreas sinalizam um certo descontentamento com a implementação da IA. Por exemplo, um gerente de peças de uma oficina de reparação expressou sua frustração com o uso de IA para gerar orçamentos, que muitas vezes estavam incorretos. Outro profissional, atuando como designer em uma grande empresa de tecnologia, destacou como a pressão para que designers utilizem códigos gerados por IA sem uma validação adequada está criando desafios na segurança e conformidade dos produtos.
A controvérsia se agrava quando consideramos os comentários sobre as demissões em massa que muitas empresas têm promovido sob a justificativa de integrar a IA. Diversos profissionais argumentam que a verdadeira razão por trás das demissões é a pura redução de custos. Um comentário particularmente incisivo afirmou que as empresas estão se utilizando da IA como um bode expiatório, tirando a culpa das demissões de seus próprios líderes, movidos mais por questões financeiras do que por uma real necessidade de substituir o trabalho humano por tecnologia. Essa resistência ao uso indiscriminado da IA muitas vezes reflete preocupações sobre a qualidade do trabalho e a precisão dos resultados.
Mesmo entre aqueles que encontram utilidade na IA, as opiniões são mistas. Um gerente de produto de uma startup destacou que, após algumas semanas configurando o fluxo de trabalho com a IA, sua equipe conseguiu aumentar a produtividade consideravelmente. Apesar disso, sem a revisão cuidadosa das saídas, essa produtividade poderia estar comprometida pela qualidade dos conteúdos gerados. Outro comentário relata que, apesar da IA ter agilizado algumas tarefas, o tempo gasto para checar e corrigir os erros gerados pode fazer o trabalho se alongar ainda mais do que se fosse realizado manualmente.
Essas polarizações nas percepções sobre a IA em ambientes corporativos não são apenas sinais de resistência à mudança, mas refletem também um novo paradigma que as empresas precisam enfrentar: o desafio de integrar tecnologias emergentes em um modelo de negócio que ainda é baseado em estruturas humanizadas e interações pessoais. Existe um consenso de que as empresas tendem a ser mais bem-sucedidas na implementação de IA se forem criadas com essa tecnologia em mente desde o início, ao invés de tentar adaptar um modelo de negócios existente, o que muitas vezes resulta em frustração e falhas.
As reflexões levantadas por essas observações são ainda mais profundas se considerarmos novas estruturas econômicas. Um compromisso de explorar como a tecnologia pode ser utilizada de forma mais eficaz pode gerar não apenas melhorias de produtividade, mas também oferecer uma abordagem mais ética e sustentável para as operações empresariais. A busca por um equilíbrio entre a automação e a valorização do trabalho humano poderá definir o futuro das relações de trabalho no século XXI.
À medida que o debate sobre os impactos sociais e econômicos da IA continua, é crucial que líderes e decision-makers considerem não apenas os benefícios financeiros imediatos, mas também o efeito a longo prazo na cultura organizacional e na experiência dos funcionários. A jornada para harmonizar a implementação da IA com as necessidades humanas é complexa, mas é essencial para garantir que ambas as partes possam não apenas coexistir, mas prosperar em conjunto em um novo mundo trabalhista onde a tecnologia é cada vez mais prevalente.
Fontes: National Bureau of Economic Research, Harvard Business Review, The Guardian
Resumo
Um estudo recente do National Bureau of Economic Research (NBER) revelou que a maioria dos executivos, incluindo CEOs e diretores financeiros, não percebe um impacto significativo da inteligência artificial (IA) em suas operações. A pesquisa, que abrangeu cerca de 6.000 executivos em quatro países, mostrou que dois terços utilizam IA, mas apenas por cerca de 1,5 horas por semana, com 25% afirmando não usar a tecnologia no dia a dia. Além disso, quase 90% das empresas indicaram que a IA não afetou a criação ou eliminação de empregos nos últimos três anos. Profissionais expressaram descontentamento com a implementação da IA, citando problemas como orçamentos incorretos gerados por IA e desafios de segurança. As demissões em massa justificadas pela integração da IA foram criticadas como uma estratégia de redução de custos, não necessariamente uma necessidade de substituição do trabalho humano. Apesar de alguns relatos de aumento de produtividade, a qualidade dos resultados gerados pela IA continua sendo uma preocupação. O debate sobre a integração da IA nas empresas destaca a necessidade de um equilíbrio entre automação e valorização do trabalho humano.
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