08/01/2026, 07:32
Autor: Ricardo Vasconcelos

A Itália está prestes a mudar sua postura em relação ao acordo de livre comércio com o Mercosul, facilitando a trajetória para um novo tratado significativo entre a União Europeia (UE) e os países da América do Sul. Segundo informações obtidas de fontes próximas ao governo italiano, em uma votação programada para o dia 9 de janeiro, espera-se que a Itália apoie a medida, influenciando a assinatura do acordo, prevista para o dia 12 do mesmo mês. Este movimento ocorre em um momento onde o tratado, que está sendo negociado há 25 anos, enfrenta suas maiores barreiras e pressões internas.
Recentemente, o clima em torno das negociações foi tenso. No mês passado, as autoridades italianas e francesas lideraram uma campanha que culminou em um adiamento da finalização do acordo, argumentando a necessidade de maiores garantias para proteger os agricultores europeus. A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni buscava implementações que incluíssem salvaguardas adicionais para a agricultura italiana e, consequentemente, fundos extras provenientes do orçamento da UE para os agricultores afetados. Contudo, a postura italiana parece estar mudando, o que pode sinalizar uma nova fase nas negociações.
Em meio às tensões, a porta-voz da Comissão Europeia, Paula Pinho, comentou que as últimas semanas foram marcadas por um trabalho produtivo e que a assinatura do tratado pode estar próxima. "Estamos no caminho certo para considerar a assinatura em breve, se Deus quiser", afirmou a porta-voz, ressaltando a urgência de se avançar nas conversações. Os temores expressos pela França, especialmente pelo presidente Emmanuel Macron, sobre o impacto das importações agrícolas da América do Sul sobre os agricultores europeus, ainda pairam sobre as discussões.
Ao considerar as implicações econômicas do acordo, este representaria o maior acordo comercial já estabelecido pela UE. Ele potencialmente formaria um mercado integrado englobando cerca de 780 milhões de consumidores. O pacto não apenas eliminaria gradualmente tarifas sobre produtos, incluindo veículos, mas também facilitaria o acesso europeu à significativa indústria agrícola do Mercosul, que inclui Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. A conclusão deste tratado é vista como uma estratégia importante para ambas as regiões diversificarem seus relacionamentos comerciais, especialmente em um cenário onde a relação com os Estados Unidos foi complicada após a administração do ex-presidente Donald Trump, que impôs tarifas globais.
Economistas da Bloomberg estimaram que o acordo poderia resultar em um crescimento econômico de até 0,7% para o Mercosul e de 0,1% para a economia da UE, o que destaca a relevância de tal pacto em um contexto tão instável no comércio global. Além de benefícios econômicos, o acordo também tem importância geopolítica, pois fortaleceria a presença da União Europeia em uma região cada vez mais influenciada pela China, que se estabeleceu como um relevante exportador de produtos e comprador de commodities.
Apesar das expectativas otimistas, o futuro do acordo ainda não está garantido. O Paraguai, que recentemente assumiu a presidência do Mercosul, pode apresentar novos desafios e complicações nas negociações. A transferência do poder para o Paraguai levanta preocupações sobre a habilidade do bloco em agir de forma coesa, especialmente considerando a situação política interna e a estrutura do governo paraguaio, que poderá logo entrar em desacordo com as medidas propostas.
A declaração do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, chamando essa oportunidade de "agora ou nunca", sublinha a pressão que o Mercosul - e, especialmente, o Paraguai - enfrentam. O compromisso e a habilidade de navegar as complexidades políticas e econômicas da abordagem diplomática estarão no centro dos desdobramentos futuros do acordo. De qualquer forma, a expectativa permanece elevada em torno do que essa possível mudança de postura da Itália pode significar, tanto para a União Europeia quanto para o Mercosul.
O acordo não só promete significativos ganhos econômicos, mas também representa uma reconfiguração das alianças e interações no âmbito global, que se farão sentir por um período considerável. O sucesso ou o fracasso do tratado poderá levar a reflexões sobre o papel da UE nas relações comerciais globais e sobre como as economias emergentes da América do Sul podem se integrar mais efetivamente nos mercados internacionais.
Fontes: Bloomberg, Folha de São Paulo
Detalhes
O Mercosul, ou Mercado Comum do Sul, é um bloco econômico formado por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, criado em 1991 para promover a livre circulação de bens, serviços e fatores produtivos entre os países membros. O Mercosul visa fortalecer a integração econômica e política na América do Sul, embora enfrente desafios internos e externos, como a necessidade de coesão política e a concorrência com outras potências comerciais.
A União Europeia (UE) é uma união política e econômica de 27 países europeus, que busca promover a integração e a cooperação entre seus membros. Fundada em 1993 com o Tratado de Maastricht, a UE possui um mercado único, permitindo a livre circulação de pessoas, bens, serviços e capitais. Além disso, a UE desempenha um papel significativo nas relações internacionais e no comércio global, buscando estabelecer acordos que favoreçam seus interesses econômicos e políticos.
Giorgia Meloni é uma política italiana, líder do partido de direita Irmãos da Itália e atual primeira-ministra da Itália, cargo que ocupa desde outubro de 2022. Ela é conhecida por suas posições conservadoras e nacionalistas, defendendo políticas que priorizam os interesses italianos em questões de imigração, economia e agricultura. Meloni tem sido uma figura influente na política italiana, especialmente em temas relacionados à União Europeia e acordos comerciais.
Emmanuel Macron é o atual presidente da França, cargo que ocupa desde maio de 2017. Ele é conhecido por suas políticas progressistas e sua abordagem proativa em questões da União Europeia. Macron tem defendido reformas econômicas e sociais na França, além de um fortalecimento da integração europeia. Sua liderança tem sido marcada por desafios internos e externos, incluindo a gestão de crises econômicas e a resposta a questões de segurança e imigração.
Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido como Lula, é um político brasileiro e ex-presidente do Brasil, tendo governado de 2003 a 2010. Ele é um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) e é reconhecido por suas políticas de inclusão social e redução da pobreza. Lula retornou à presidência em 2023, após um período de prisão e controvérsias políticas. Sua liderança é marcada por um forte enfoque em questões sociais e de desenvolvimento econômico.
Resumo
A Itália está prestes a mudar sua postura em relação ao acordo de livre comércio com o Mercosul, facilitando um novo tratado entre a União Europeia (UE) e os países da América do Sul. Em uma votação marcada para 9 de janeiro, a Itália deve apoiar a medida, influenciando a assinatura do acordo prevista para 12 de janeiro. O tratado, que está sendo negociado há 25 anos, enfrenta barreiras e pressões internas, especialmente da França, que busca garantias para proteger seus agricultores. A porta-voz da Comissão Europeia, Paula Pinho, destacou que as negociações têm sido produtivas, com a assinatura do tratado se aproximando. Este acordo, o maior já estabelecido pela UE, poderia criar um mercado integrado de 780 milhões de consumidores, eliminando tarifas em produtos e facilitando o acesso europeu à agricultura do Mercosul. Economistas estimam que o pacto poderia gerar crescimento econômico de até 0,7% para o Mercosul e 0,1% para a UE. Contudo, a situação política no Paraguai, que assumiu a presidência do Mercosul, pode complicar as negociações. O presidente brasileiro Lula da Silva enfatizou a urgência da oportunidade, destacando a importância do acordo para as relações comerciais globais.
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