13/02/2026, 12:25
Autor: Laura Mendes

Na última quinta-feira, o Supremo Tribunal da Virgínia tomou uma decisão que se revelou polarizadora e repleta de implicações éticas, ao permitir que uma adoção controversa de uma órfã da guerra afegã por um fuzileiro naval estadunidense continuasse. A questão que permeia o caso gera atenuação de polaridades morais e éticas profundas e evidencia as complexas interseções entre adoção, direitos humanos e a responsabilidade das nações em conflito.
A história começou em setembro de 2019, quando a criança, apenas uma pequena órfã, ficou ferida em um ataque militar dos EUA no Afeganistão. Os soldados envolvidos no ataque a um complexo rural resgataram a menina e a levaram para um hospital militar. No entanto, as raízes familiares da criança foram reconhecidas pelo governo afegão, que avaliou que ela tinha parentes vivos. A partir de então, a família da criança começou um processo para recuperá-la.
Contrariamente a essa situação, o casal americano, Joshua e Stephanie Mast, buscou a adoção da criança a mais de 11.000 quilômetros de distância. Em uma aparente violação dos direitos parentais estabelecidos, os Masts convenceram um juiz do Condado de Fluvanna a conceder a guarda e, subsequentemente, a adoção da menina, argumentando que ela era apátrida. No entanto, a família afegã, que cuidou da criança após a perda de seus pais, permaneceu completamente alheia à situação.
Os juízes da Suprema Corte da Virgínia, em sua maioria, decidiram que a adoção permaneceria válida, invocando uma controvertida lei que consolida ordens de adoção passados seis meses, mesmo nas situações em que questionamentos à ordem poderiam ser levantados. Três juízes que dissentiram da opinião da maioria chamaram a decisão de “cancerígena”, alertando que a adoção, desde o princípio, estava repleta de fraudes e manipulações.
As palavras de um dos juízes refletiram a perplexidade em relação aos fatos do caso, argumentando que a legitimidade dos direitos parentais afegãos estava sendo ignorada em favor de um processo que se apresentava, no fundo, como uma imposição de uma 'justiça' fortemente americanizada sobre os cidadãos do Afeganistão, que enfrentaram as consequências diretas de operações bélicas. Tal decisão reabre feridas profundas em relação ao papel dos Estados Unidos em terras estrangeiras, incitando um diálogo sobre as implicações culturais e as consequências das intervenções militares na vida das populações afetadas.
Muitos observadores externos lançaram questionamentos sobre a ética da adoção em circunstâncias que envolvem a morte dos pais da criança. Um debate que fervilha à sombra do que muitos consideram um cenário de sequestro disfarçado, onde uma criança é retirada de seu lar e família, sob a justificativa de uma adoção que surgiu de alegações fabricadas. A adoção na Virgínia, que ocorreu em um contexto de conflito militar, é mais do que um simples reconhecimento legal; é uma representação das disparidades de poder e dos conflitos de identidade que a guerra cria.
Os defensores da família afegã, que se viram despojados de seus direitos parentais, como também aqueles que seguem a discussão em plataformas sociais, destacam que a fundamentação emocional em torno da adoção não deve silenciar a importância das raízes familiares e das histórias de vida. Perguntas surgem em relação a como os próprios pais que adotaram a criança irão educá-la. Como irão abordar sua origem étnica, suas heranças culturais, além dos traumas que permeiam sua história?
No advento dessa decisão, fica evidente que a situação gera um imenso peso moral sobre o futuro da criança e o destino da sua identidade. As consequências dessa decisão transcendem as questões legais, exigindo um olhar mais atento sobre a simbologia de tal ato em uma sociedade globalizada, que frequentemente confronta o passado militar com as consequências que cabem aos que sobreviveram.
Esta situação ainda poderá desdobrar novas narrativas sobre os direitos das crianças em situações de conflito, da responsabilidade e da busca por justiça em contextos de guerra. O clamor por uma reflexão profunda sobre a condição humana e a busca incessante por momentos de compaixão e humanidade torna-se mais que um apelo, é uma obrigação em tempos onde o humano se vê ainda mais à mercê das estruturas legais e das interpretações de quem se sente dono da verdade.
Fontes: The Washington Post, CNN, BBC, Al Jazeera
Resumo
Na última quinta-feira, o Supremo Tribunal da Virgínia decidiu permitir a adoção de uma órfã afegã por um fuzileiro naval dos EUA, gerando polêmica sobre as implicações éticas da decisão. A criança, ferida em um ataque militar americano em 2019, foi resgatada e levada a um hospital, mas sua família afegã reivindicou seus direitos parentais. Apesar disso, Joshua e Stephanie Mast, um casal americano, conseguiram a guarda e a adoção da menina, alegando que ela era apátrida. A Suprema Corte, em sua maioria, manteve a adoção, citando uma lei que valida ordens de adoção após seis meses, mesmo em casos contestados. Juízes dissententes expressaram preocupações sobre a legitimidade dos direitos parentais afegãos, sugerindo que a adoção representa uma imposição de valores americanos sobre a cultura local. A decisão levanta questões sobre a ética da adoção em contextos de guerra e os traumas que a criança pode enfrentar em relação à sua origem e identidade, além de reabrir debates sobre os direitos das crianças em situações de conflito.
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