01/02/2026, 23:02
Autor: Felipe Rocha

Um estudo recente do Centro Levada, uma organização de pesquisa independente na Rússia, revelou insights alarmantes sobre a percepção do povo russo em relação a seus vizinhos europeus, destacando a Polônia e a Lituânia como os principais "inimigos" nacionais. Com base em uma pesquisa que contou com a participação de milhares de entrevistados, 62% dos russos identificaram esses dois países como hostis, superando outros países que tradicionalmente têm sido considerados adversários, como o Reino Unido e os Estados Unidos.
Historicamente, relações tensas entre a Rússia e esses países têm suas raízes em conflitos passados e na dinâmica de poder na região. Os entrevistados afirmaram que a Polônia, em particular, é vista como um "inimigo natural", uma referência a discursos nacionais que mencionam eventos históricos significativos, como a Guerra Polono-Russa, que se estendeu por mais de quatro séculos e deixou cicatrizes profundas nas relações entre os dois povos. Tal é a intensidade desses sentimentos que apenas 2% dos participantes da pesquisa consideraram a Polônia uma amiga, revelando um abismo na compreensão mútua e na confiança.
A Lituânia, por outro lado, embora frequentemente vista como um alter ego da Polônia em questões de relações internacionais, também se destaca em termos de antagonismo. A pesquisa mostrou que a Lituânia acabou por se tornar uma das nações mais desprezadas ao lado da Polônia, reforçando a ideia de que essas nações do Báltico são percebidas como as ameaças mais iminentes para a Rússia. Outras nações, como a Alemanha e os Estados Unidos, também estão na lista dos países hostis, mas em índices significativamente mais baixos, com 50% e 27%, respectivamente. Este fenômeno sugere uma mudança na paisagem política e social, especialmente após a invasão da Ucrânia por parte da Rússia, em 2022, que afetou drasticamente a forma como os russos veem seus vizinhos.
Adicionalmente, os dados mostram uma mudança nos sentimentos russos em relação aos Estados Unidos. Em anos recentes, especialmente durante a administração Biden, a percepção de hostilidade pelos EUA caiu de 80% para 27%, o que contrasta fortemente com os altos níveis de antipatia direcionados à Polônia e à Lituânia. Essa mudança pode ser influenciada pelo contexto político interno e internacional, com menos atenção sendo dada a outros adversários enquanto as preocupações sobre a NATO e o Ocidente se intensificam.
A gravidade desse assunto não pode ser subestimada, considerando as consequências potenciais das percepções de inimizade na política externa e na segurança regional. A crescente aversão em relação à Polônia e à Lituânia, guiada por uma narrativa histórica repleta de desconfiança e rivalidade, tem o potencial de exacerbar tensões já explosivas na região. O que é particularmente intrigante é que a pesquisa do Centro Levada mostra que até mesmo a Ucrânia, que está em conflito armado com a Rússia, não é vista com tanta hostilidade quanto a Polônia e a Lituânia, indicando uma complexidade nas percepções de "inimigo".
Alguns comentários que surgiram em discussão sobre a pesquisa jogam luz sobre o absurdo de tais classificações. Um usuário, em tom satírico, sugere que seria igualmente insensato imaginar que nações como a Alemanha enxergariam Liechtenstein como um inimigo, questionando a lógica por trás das hostilidades. Outros comentários expressam uma tristeza profunda pela percepção distorcida que os russos têm de seus vizinhos, lamentando que estas dificuldades nas relações sejam baseadas em eventos históricos distantes e em narrativas polêmicas que muitas vezes ignoram o desejo de paz da população civil.
Além disso, vale a pena ressaltar a preocupação que muitos têm em relação a um crescente sentimento xenofóbico dentro da Rússia. O intercâmbio cultural que poderia ajudar a suavizar tensões históricas entre essas nações parece estar se deteriorando à medida que a russa se afasta da sua atitude internacionalista para uma visão mais isolacionista e nacionalista. A divergência entre a percepção do governo russo e a realidade no solo torna-se inquietante, especialmente quando se considera que todas essas tensões emergem de um pano de fundo histórico muitas vezes utilizado para justificar políticas agressivas.
À medida que a Europa continua a navegar em um cenário geopolítico em mudança, é crucial que as vozes que clamam por um entendimento mais pacífico e saudável entre os povos façam-se ouvir. Somente através do diálogo e da cooperação será possível superar um legado de desconfiança e hostilidade que continua a assolar a região. Essa mudança não será fácil e levará tempo, mas, ao contrário do que as pesquisas podem sugerir, provavelmente existe um desejo compartilhado entre os cidadãos de ambos os lados por um futuro mais harmonioso.
Fontes: BBC, Estadão, Levada Center Reports, The Moscow Times
Detalhes
O Centro Levada é uma organização independente de pesquisa na Rússia, conhecida por suas análises sociais e políticas. Fundada em 2003, a instituição realiza pesquisas de opinião pública e estudos sobre tendências sociais, oferecendo uma visão crítica sobre a sociedade russa e suas dinâmicas. É frequentemente citada em debates sobre a percepção pública e a política na Rússia, embora enfrente desafios devido ao ambiente político restritivo no país.
Resumo
Um estudo do Centro Levada, uma organização de pesquisa independente na Rússia, revelou que 62% dos russos veem a Polônia e a Lituânia como os principais "inimigos" nacionais, superando países como o Reino Unido e os Estados Unidos. A pesquisa, que envolveu milhares de entrevistados, destaca a Polônia como um "inimigo natural", refletindo uma longa história de conflitos, como a Guerra Polono-Russa. Apenas 2% dos participantes consideraram a Polônia uma amiga. A Lituânia, frequentemente associada à Polônia, também é vista como uma ameaça significativa. Enquanto a hostilidade em relação aos Estados Unidos caiu de 80% para 27% sob a administração Biden, a aversão à Polônia e à Lituânia permanece alta. A pesquisa sugere uma mudança nas percepções russas, especialmente após a invasão da Ucrânia em 2022, e levanta preocupações sobre o crescente sentimento xenofóbico na Rússia. A falta de intercâmbio cultural e a ascensão do nacionalismo dificultam a construção de um entendimento pacífico entre os povos, embora exista um desejo compartilhado por um futuro mais harmonioso.
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