30/08/2025, 13:03
Autor: Laura Mendes
O futebol é mais que um mero esporte para os brasileiros; é uma paixão nacional, um tema recorrente em diversas expressões culturais, incluindo a literatura. O renomado autor e cronista Luis Fernando Veríssimo oferece uma perspectiva única sobre esse fenômeno social em suas crônicas, particularmente em "Vá explicar" e "Para que serve o futebol", que envolvem o futebol tanto em sua essência como num contexto crítico e social. Ao longo dessas reflexões, Veríssimo destaca como o esporte não é apenas uma fonte de entretenimento, mas também um espelho das contradições e absurdos da sociedade brasileira.
O Brasil, conhecido como o "país do futebol", abriga uma paixão inegável pelo esporte. No entanto, essa devoção vem acompanhada de um conjunto complexo de questões sociais, como a desigualdade e a luta pela terra, que surpreenderiam até mesmo um extraterrestre hipotético. Veríssimo utiliza a figura do marciano em suas crônicas para ilustrar a perplexidade que muitos estrangeiros sentiriam ao entender a dinâmica futebolística brasileira. Com um país recheado de gigantescas propriedades agrícolas e uma histórica luta pela reforma agrária, a ideia de agricultores sem terra soa absurda, exemplificando a complexidade social que permeia nosso esporte mais amado.
Além disso, o autor toca em pontos-chave sobre o consumo do futebol como um grande negócio. Em um país onde o Flamengo se destaca não só pelo número de torcedores, mas pela força que sua torcida exerce no sucesso financeiro dos campeonatos, fica evidente que o futebol movimenta bilhões e gera intensas rivalidades. No entanto, essa conexão entre paixão e mercado pode ser enganosa, como Veríssimo aponta: até mesmo um dos maiores clubes do Brasil enfrentou ameaças de rebaixamento, revelando a tensão entre a emoção e a dura realidade financeira do futebol. Essa dualidade é um tema frequente nas crônicas de Veríssimo, que expõe como a paixão inabalável dos torcedores se choca com os desígnios das administrações desportivas.
Na mesma linha, Veríssimo critica o ambiente de infantilização no qual o futebol brasileiro muitas vezes opera. Ele argumenta que a paixão pelo futebol desafia a lógica adulta e se sustenta na “doçura” da irresponsabilidade, onde os clubes atuam como crianças brincando de ser grandes. Essa metáfora, apesar de bem-humorada, expõe uma frustração mais profunda: a falta de profissionalismo que perpetua um ambiente onde ações irresponsáveis não têm consequências, permitindo que o comércio e o mercado negro prosperem sem controle. A seriedade da culpa fiscal e a transparência financeira, que deviam ser exigidas dos clubes, tornam-se alvos de ironias agridoce quando vemos o espetáculo dos torcedores e sua inabalável lealdade.
As crônicas de Veríssimo sobre o futebol não apenas celebram a paixão que permeia cada jogo, mas também instigam uma reflexão sobre o impacto das injustiças sociais e as falências do sistema que se apresentam em campos e arquibancadas. O autor sugere que, por trás da mágica do futebol, há uma realidade que muitos preferem ignorar: a necessidade de um futebol mais transparente, ético e responsável. Quando ele imagina um país escandinavo em sua crônica, que demanda uma mudança fundamental na estrutura social, fica claro que sua crítica vai além do campo esportivo; ele busca uma sociedade mais justa.
Neste contexto, também surge a discussão sobre o futuro do futebol diante de perfis corporativos que dominam e transformam a essência do jogo, levando a uma esfera onde as autoridades locais são meros figurantes. Em várias de suas crônicas, Veríssimo reflete sobre como o futebol, que originalmente era um espaço de interação comunitária, pode se transformar em um produto de mercado, refletindo nossas ambições coletivas e individualistas. Este dilema do "time do coração" ressoa perfeitamente com a ideia de que, ao mesmo tempo que torcemos, nos tornamos produtos das corporações que agora governam o esporte.
A realidade do futebol atual pode ser fascinante e alienante ao mesmo tempo. À medida que observamos a evolução das táticas e a integração de novas tecnologias, é crucial também lembrar que o jogo continuará sendo, em essência, uma celebração da paixão e do espírito humano. No entanto, a necessidade de responsabilidade e de um olhar crítico sobre essa paixão se faz cada vez mais evidente. Veríssimo, com suas crônicas mordazes e hilárias, continua a nos lembrar que, mesmo em meio a nossa devoção cega, devemos manter um olhar atento sobre os absurdos que permeiam não apenas o futebol, mas nossa sociedade como um todo. Assim, a trajetória do futebol no Brasil se transforma em uma ampla metáfora da luta por justiça, equidade e a eterna esperança de que, um dia, conseguiremos estruturar uma sociedade tão magnífica quanto nosso amor pelo esporte.
Fontes: O Globo, UOL, Estadão
Detalhes
Luis Fernando Veríssimo é um renomado escritor e cronista brasileiro, conhecido por suas crônicas que abordam temas diversos, incluindo o cotidiano, a política e, especialmente, o futebol. Com um estilo bem-humorado e crítico, ele se destaca por sua capacidade de refletir sobre a sociedade brasileira, utilizando a literatura como uma ferramenta para discutir questões sociais e culturais. Suas obras são amplamente reconhecidas e apreciadas, tornando-o uma figura influente na literatura contemporânea do Brasil.
Resumo
O futebol no Brasil é mais que um esporte; é uma paixão nacional que permeia a cultura e a literatura, como exemplificado nas crônicas do autor Luis Fernando Veríssimo. Em obras como "Vá explicar" e "Para que serve o futebol", ele analisa a complexidade social que envolve o esporte, destacando questões como desigualdade e a luta pela terra. Veríssimo usa a figura de um marciano para ilustrar a perplexidade de estrangeiros diante da dinâmica futebolística brasileira, onde a devoção ao futebol convive com problemas sociais profundos. Ele também critica a mercantilização do esporte, evidenciando a relação entre paixão e finanças, e como clubes como o Flamengo enfrentam tensões entre emoção e realidade econômica. Além disso, o autor aponta a infantilização do ambiente futebolístico, onde irresponsabilidades não têm consequências, e critica a falta de profissionalismo. Suas crônicas não apenas celebram a paixão pelo futebol, mas também instigam reflexões sobre injustiças sociais e a necessidade de um futebol mais ético e transparente, transformando o esporte em uma metáfora para a luta por justiça e equidade na sociedade.
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