02/01/2026, 20:39
Autor: Ricardo Vasconcelos

O conceito de "trickle down", que sugere que a riqueza gerada pelos mais ricos acabaria beneficiando todos os estratos da sociedade, está sob análise crítica novamente, à medida que evidências de crescente desigualdade econômica nos Estados Unidos se acumulam. Historicamente associada à presidência de Ronald Reagan, a teoria ganhou novos contornos nos últimos anos, mas críticas afirmam que sua eficácia foi largamente exagerada.
Desde a implementação da política fiscal de Reagan, que introduziu cortes de impostos significativos para os mais abastados sob o lema de que isso geraria benefícios para toda a população, o cenário econômico dos EUA passou por transformações drásticas. Vários analistas e economistas acusam as políticas do "trickle down" de falharem no objetivo de criar uma prosperidade compartilhada, argumentando que os benefícios acabaram concentrados nas mãos de poucos.
Um dos pontos mais frequentemente levantados por críticos é o fato de que, mesmo em períodos de crise econômica, como a Grande Recessão e durante a pandemia de COVID-19, os bilionários foram resgatados por intervenções estatais que, segundo eles, reforçaram uma economia baseada no favorecimento dos ricos. "Esses bilionários, por exemplo, foram salvos diversas vezes quando cometeram erros, e isso se combina com subsídios do governo para grandes corporações", comenta um dos críticos.
Além disso, faz-se referência aos cortes de impostos e à inflação de ativos como práticas que beneficiaram mais os ricos em comparação à classe média e aos pobres. O Federal Reserve, por exemplo, sob a administração de Obama, implementou políticas de afrouxamento monetário, que resultaram em taxas de juros em níveis historicamente baixos e na impressão de trilhões de dólares, cujo objetivo declarado era reanimar a economia. Contudo, o que muitos veem é um aumento significativo nos preços dos ativos, alimentando mais a disparidade.
Com a ascensão de novas figuras políticas, como Kamala Harris, que se apresentou como uma candidata com forte apoio de bilionários, muitos perguntam se a política atual não apenas repete os mesmos erros do passado, mas potencializa ainda mais a desigualdade. Para Barack Obama, a visão de crescimento econômico e inclusão social não se konkretizou, levando a algumas reformas que, segundo críticos, não foram suficientemente robustas para combater a desigualdade sistêmica.
A crítica também se estende à ideia de que a política econômica atual ainda está enraizada nas crenças que sustentam o "trickle down". O economista Jeffrey Sachs observou que o termo "economia do vodu", atribuído ao ex-presidente George W. Bush, deveria ser revitalizado, dado que a lógica que o sustenta, a de que a riqueza dos ricos beneficiaria os pobres, permanece desatendida na prática.
Em contrapartida, alguns defensores do modelo argumentam que a entrada crescente de bilionários em setores como tecnologia e saúde não necessariamente implica uma desvantagem para as classes mais baixas. Eles sugerem que o aumento de riqueza em determinados segmentos da sociedade pode estar levando a inovações que, a longo prazo, podem beneficiar um espectro maior da população.
Entretanto, o cenário continua a ser alarmante para muitos, já que mais da metade da renda nos EUA está concentrada nas mãos de uma minoria. Em um mundo onde a desigualdade social é uma questão crítica, muitos já se questionam se o crescimento da renda dos ricos é uma dádiva ou uma maldição para a população em geral. A perspectiva de um futuro onde as políticas econômicas possam realmente equilibrar o campo de jogo ainda parece distante, e a necessidade de um reexame nas políticas fiscais e sociais é urgentemente reivindicada por muitos especializados no campo da economia.
À medida que novas eleições se aproximam e o debate econômico se intensifica, o "trickle down" será um assunto central na discussão sobre a equidade e a distribuição de riqueza nos Estados Unidos. Economistas e cidadãos continuam a vigiar a implementação de políticas que possam garantir um crescimento que beneficie não apenas os ricos, mas que também traga avanços significativos para todos os setores da sociedade.
Portanto, enquanto a América luta com esses desafios econômicos, a ideologia por trás do "trickle down" deve ser reconsiderada, com um olhar na efetividade e nas suas consequências para a desigualdade social. As vozes em oposição a essa abordagem estão se intensificando, e as promessas de prosperidade precisam ir além da retórica para verdadeiramente impactar a vida do cidadão comum.
Fontes: Folha de São Paulo, Washington Post, Federal Reserve, Forbes
Resumo
O conceito de "trickle down", que sugere que a riqueza dos mais ricos beneficia toda a sociedade, está sob nova análise crítica devido ao aumento da desigualdade econômica nos Estados Unidos. Associada à presidência de Ronald Reagan, essa teoria é contestada por analistas que afirmam que os benefícios se concentram nas mãos de poucos. Críticos apontam que, mesmo em crises, como a Grande Recessão e a pandemia de COVID-19, os bilionários foram salvos por intervenções estatais, reforçando uma economia que favorece os ricos. Além disso, políticas como cortes de impostos e afrouxamento monetário contribuíram para a disparidade, enquanto a classe média e os pobres continuam a enfrentar dificuldades. Com novas figuras políticas, como Kamala Harris, surgindo, muitos se perguntam se as políticas atuais não repetem os erros do passado. Embora alguns defensores do modelo argumentem que a riqueza dos bilionários pode levar a inovações benéficas, a concentração de renda permanece alarmante, levantando questões sobre a eficácia das políticas econômicas em promover a equidade. A discussão sobre o "trickle down" será central nas próximas eleições, com a necessidade de reexaminar as políticas fiscais e sociais se tornando cada vez mais urgente.
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