19/02/2026, 18:00
Autor: Laura Mendes

As redes sociais estão desempenhando um papel cada vez mais crucial na formação de opiniões políticas, especialmente em um cenário polarizado como o atual. Uma pesquisa recente envolvendo quase 5.000 usuários da plataforma X, anteriormente conhecida como Twitter, sugere que o algoritmo da rede social pode estar contribuindo para uma mudança nas visões políticas dos usuários em direção ao conservadorismo. Essa descoberta levanta questões importantes sobre a eficácia e a responsabilidade das plataformas digitais em relação à informação que disseminam.
Conduzida por Ekaterina Zhuravskaya e sua equipe, a pesquisa envolveu um experimento de campo com 4.965 usuários ativos do X em 2023 nos Estados Unidos. Os participantes foram divididos aleatoriamente entre dois grupos: um que utilizava o feed algorítmico e outro que teve acesso a um feed cronológico tradicional por aproximadamente sete semanas. Antes e depois do estudo, os usuários responderam a questionários que coletaram dados sobre suas preferências e interações na plataforma.
Os resultados encontrados foram reveladores. Os usuários que foram expostos ao feed algorítmico tendiam a interagir mais frequentemente com a plataforma e relataram uma inclinação maior para adotar prioridades políticas conservadoras. Além disso, era mais comum que esse grupo seguisse contas de ativistas políticos conservadores, destacando um padrão de comportamento que sugere uma predisposição a consumir mais conteúdo orientado para a direita. Em contrapartida, aquele que fez a transição de volta para um feed cronológico praticou pouco ou nenhum impacto significativo em suas atitudes políticas ao longo do tempo.
A pesquisa também investigou a natureza do conteúdo exibido por meio do algoritmo. Os dados mostraram que, em comparação com o feed cronológico, o feed algorítmico promovia muitas mais postagens de viés conservador, além de mostrar menos conteúdo proveniente de meios tradicionais de comunicação. Essa descoberta acrescenta um novo nível ao debate sobre a polarização nas redes sociais, uma vez que sugere que os algoritmos não apenas determinam quais informações chegam aos usuários, mas também influenciam diretamente suas preferências políticas.
No contexto atual, onde as redes sociais se tornaram uma fonte central de informações, as preocupações sobre desinformação e polarização são mais relevantes do que nunca. O estudo se alinha a uma série de investigações anteriores que começaram a explorar o impacto que a tecnologia tem sobre a formação da opinião pública. Embora não se tenha muita evidência de que a desativação do algoritmo possa restaurar a neutralidade política, o impacto do algoritmo em moldar as visões iniciais dos usuários é notável.
Alguns comentaristas destacaram a relevância da pesquisa, afirmando que essa confirmação acerca da manipulação algorítmica das opiniões é um chamado para uma análise mais profunda sobre como as redes sociais devem operar. O posicionamento de Elon Musk, atual proprietário do X, ao apontar que a plataforma seria um espaço para 'vozes conservadoras' também suscita discussões sobre a responsabilidade das plataformas em ambientes onde as informações devem fluir livremente, mas, ao mesmo tempo, são moldadas por interesses financeiros e políticos.
No entanto, muitas pessoas que participaram da discussão afirmam que se afastaram do X devido à notável tendência de receber conteúdo conservador, apesar de tentativas de bloquear contas ou ajustar suas preferências. Essa situação tem alimentado a frustração entre os usuários que buscam um espaço mais equilibrado para o discurso político.
A polarização exacerbada por meio de algoritmos faz parte de um fenômeno mais amplo de câmaras de eco digital, onde as opiniões divergentes são frequentemente suprimidas ou ignoradas, criando divisões ainda mais marcadas. Parte dos usuários expressou preocupações de que essa prática não só transforma a experiência online, mas também contribui para um ambiente político em que ficções se sobrepõem a verdades, e onde a democracia pode ser prejudicada pela manipulação de narrativas.
Assim, a pergunta que se coloca é: até que ponto as plataformas sociais, como o X, são responsáveis por moldar as visões políticas de seus usuários? A pesquisa de Zhuravskaya e seus colaboradores fornece dados cruciais para entender esse fenômeno. O debate sobre a influência algorítmica está apenas começando, e suas implicações podem ser profundas e duradouras, exigindo uma revisão cuidadosa das políticas das redes sociais e de seus impactos na sociedade.
Fontes: Nature, The New York Times, The Guardian
Detalhes
Ekaterina Zhuravskaya é uma economista e pesquisadora conhecida por seus estudos sobre o impacto das redes sociais na formação de opiniões políticas e na comunicação digital. Sua pesquisa frequentemente explora como algoritmos e plataformas digitais influenciam o comportamento dos usuários e a dinâmica política, contribuindo para o entendimento das consequências sociais da tecnologia.
Resumo
As redes sociais, especialmente a plataforma X, anteriormente conhecida como Twitter, estão se tornando fundamentais na formação de opiniões políticas em um ambiente polarizado. Uma pesquisa recente com quase 5.000 usuários sugere que o algoritmo do X pode estar direcionando os usuários a posturas mais conservadoras. Realizada por Ekaterina Zhuravskaya e sua equipe, a pesquisa dividiu os participantes entre um feed algorítmico e um cronológico. Os resultados mostraram que os usuários do feed algorítmico interagiam mais e tendiam a seguir contas conservadoras, enquanto aqueles que retornaram ao feed cronológico não apresentaram mudanças significativas em suas atitudes políticas. Além disso, o algoritmo promovia mais conteúdo conservador e menos de meios tradicionais. A pesquisa destaca preocupações sobre desinformação e polarização nas redes sociais, levantando questões sobre a responsabilidade das plataformas em moldar as opiniões políticas. A polarização exacerbada por algoritmos pode criar divisões mais profundas e prejudicar a democracia, tornando essencial uma análise crítica das políticas das redes sociais.
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