30/08/2025, 09:42
Autor: Laura Mendes
Em momentos de crise, a forma como uma sociedade se une ou se divide pode dizer muito sobre suas dinâmicas internas. O atentado de 11 de setembro, que ficou marcado na memória coletiva americana, trouxe consigo uma onda de unidade que se manifestou em bandeiras hasteadas e sentimentos de patriotismo renovado. Em contraste, a pandemia de COVID-19, que devastou o mundo nos últimos anos, parece ter aprofundado divisões entre os americanos, revelando um cenário de conflito e desentendimentos que já perdura. Muitos se perguntam: por que esses dois eventos tão significativos tiveram reações tão diferentes?
Após o 11 de setembro, o país rapidamente se viu frente a um inimigo claro, um grupo terrorista que atacou a nação. Esse fator facilitou a formação de um espírito de coletividade, onde as diferenças políticas e sociais passaram a parecer secundárias. Os americanos se uniram em resposta à dor compartilhada, surgindo um senso de solidariedade que foi evidente em atos de heroísmo e esforço comunitário.
Por outro lado, a COVID-19 não ofereceu um inimigo comum. Ao invés de uma luta contra um ataque externo, a sociedade teve que enfrentar uma pandemia que se espalhava através de um vírus invisível, levantando questões complexas sobre saúde, liberdade e responsabilidade social. Nesse contexto, as divisões começaram a emergir. A falta de um vilão identificável, que pudesse ser “combatido”, transformou vizinhos em potenciais adversários, onde pessoas passaram a ser julgadas por suas escolhas sobre o uso de máscaras e vacinações. Essa complexidade dificultou a criação de um espírito de união, gerando polarização e debates acalorados nas redes sociais.
A comparação entre esses dois momentos cruciais da história americana também se estende ao papel da comunicação e da informação. Em 2001, a internet ainda não dominava a forma como as pessoas se informavam, e a proliferação de desinformação, que hoje se alastra rapidamente pelas mídias sociais, não era um fenômeno comum. A ausência de plataformas digitais de compartilhamento em larga escala permitiu que a narrativa sobre a unidade pós-11 de setembro se consolidasse de maneira mais coesa.
Contudo, o cenário atual é marcado por uma avalanche de informações, muitas vezes contraditórias, que contribuem para confusões e distúrbios sociais. A COVID-19 se tornou um campo de batalha ideológico, onde as diferentes visões sobre saúde pública exacerbaram as divisões já existentes. Assim, enquanto o 11 de setembro uniu muitos em torno de uma causa comum, a pandemia parece ter acentuado as fraturas sociais, evidenciando como a percepção de comunidade pode variar drasticamente dependendo da natureza da crise.
Ademais, a maneira como as sociedades reagiram a esses eventos também está profundamente alinhada às experiências pessoais de indivíduos e grupos. Após o 11 de setembro, muitos se sentiram elevados por uma identidade nacional compartilhada, embora essa união não fosse verdadeira para todos, especialmente para aqueles que pertenciam a grupos já estigmatizados. Já na COVID-19, a batalha pela unidade foi travada de outra forma, onde muitos experimentaram o isolamento, a ansiedade e a frustração, exacerbando sentimentos de separação e individualismo.
Ainda, a questão da manipulação social é relevante diante das narrativas criadas a partir de cada um desses eventos. Nos tempos atuais, a disseminação de desinformação e teorias da conspiração criaram um ambiente em que a confiança nas instituições e na ciência passou a ser questionada. A percepção de que a COVID-19 foi usada como uma ferramenta para fomentar divisão e hostilidade entre os americanos é uma ideia que começa a ganhar tração. O que antes poderia ser um simples vírus tornou-se uma arma para explorar e acentuar desconfianças, algo que se observou em níveis alarmantes.
Nesse contexto, muitos se perguntam sobre como os americanos podem encontrar um caminho para a reconciliação e a unidade, mesmo diante de diferentes crenças e experiências. As lições aprendidas com o 11 de setembro podem servir para informar estratégias atuais, oferecendo um vislumbre de esperança de que a sociedade possa se unir novamente em um momento de crise. É um desafio complexo, mas um que merece reflexão e esforço coletivo.
Essas experiências destacam não apenas a resiliência, mas também a fragilidade do tecido social americano, revelando como a resposta a eventos globais pode moldar a sociedade de maneiras imprevistas. Em última análise, a história continua a ser escrita, e a forma como os americanos lidam com seus desafios atuais poderá muito bem contar a história do futuro do país, seja através da unidade ou da divisão.
Fontes: The New York Times, Washington Post, Pew Research Center, CDC
Resumo
A forma como uma sociedade reage a crises pode revelar suas dinâmicas internas. O atentado de 11 de setembro gerou um forte sentimento de unidade nos Estados Unidos, com os cidadãos se unindo em torno de um inimigo comum e expressando patriotismo. Em contraste, a pandemia de COVID-19 acentuou divisões, pois não havia um vilão identificável, levando a conflitos sobre saúde pública e escolhas pessoais, como o uso de máscaras e vacinas. A comunicação também desempenhou um papel crucial: em 2001, a desinformação não era tão prevalente, enquanto hoje, as redes sociais amplificam narrativas contraditórias. A polarização resultante da pandemia destaca a fragilidade do tecido social americano, com muitos sentindo isolamento e frustração. As lições do 11 de setembro podem oferecer insights para promover a unidade em tempos de crise, mas o futuro do país dependerá de como os americanos enfrentam seus desafios atuais.
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