Texas A&M proíbe ensino de Platão em polêmica sobre diversidade

Texas A&M University enfrenta críticas após proibir trechos de Platão sobre identidade de gênero e patriarcado em curso de filosofia, gerando controvérsias sobre liberdade acadêmica.

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10/01/2026, 20:35

Autor: Laura Mendes

Uma sala de aula em uma universidade com quadros negros, livros de filosofia em destaque, e uma figura de Platão em um mural. Ao fundo, alunos parecem confusos, enquanto um professor tenta explicar questões sobre identidade de gênero e diversidade. A imagem tem um tom satírico, refletindo a tensão entre tradições acadêmicas e discussões contemporâneas sobre inclusão.

A Texas A&M University, uma das principais instituições de ensino superior do Texas, virou palco de uma polêmica sem precedentes ao proibir o professor de filosofia Martin Peterson de incluir trechos de Platão em sua disciplina de “Problemas Morais Contemporâneos”. A medida, comunicada por meio de um e-mail da chefe do departamento, Kristi Sweeney, sugere que Peterson remova obras de Platão que abordam temas como identidade de gênero e patriarcado ou enfrente a possibilidade de ser designado para outra turma. Essa ação gerou intensos debates sobre os limites da liberdade acadêmica e a necessidade de uma educação inclusiva.

A decisão veio à tona quando o professor, em resposta à solicitação, revelou que foi instruído a eliminar passagens específicas de diálogos socráticos que incluem reflexões do dramaturgo Aristófanes. Uma das passagens destacadas, conhecida como "Mito do Andrógeno", menciona que existem três tipos de seres humanos, não apenas os categorias binárias de masculino e feminino, um argumento que ressoa profundamente no contexto atual de discussões sobre identidade de gênero e sexualidade. Peterson, que também preside o Conselho de Liberdade Acadêmica da instituição, afirmou em sua resposta que a universidade está sendo conhecida, mas não por razões respeitáveis: “Você está tornando a Texas A&M famosa — mas não pelos motivos certos”.

As reações à decisão foram diversas. Alguns alunos e acadêmicos manifestaram preocupação com a possibilidade de que a filosofia, uma disciplina que historicamente se ocupa de questionar as verdades absolutas e explorar a condição humana, esteja sendo sujeita a restrições. “Acho que as tentativas de tornar a filosofia e outras artes inúteis não são suficientes para impedir a exploração intelectual. Essa decisão é uma afronta ao que a educação deve ser”, declarou um aluno em um comentário relacionado à ocorrência.

Por outro lado, existem aqueles que defendem a ideia de que certas obras podem não ser apropriadas para o contexto contemporâneo e a necessidade de uma educação mais inclusiva. Um comentarista mencionou que “já estou prevendo que todos os livros de filosofia e ética serão substituídos pela Bíblia no Texas, dentro de um ano”. Essa afirmativa reflete um receio sobre um movimento crescente entre algumas instituições que tendem a favorecer conteúdos considerados mais conservadores ou alinhados com determinadas ideologias políticas.

Os debates sobre o que deve ser ensinado nas universidades não são novos, mas a situação em Texas parece estar se intensificando à medida que políticas de inclusão e diversidade ganham força nas discussões acadêmicas. Alguns críticos argumentam que, ao reprimir a literatura filosófica clássica, as universidades estão criando um ambiente hostil não apenas à educação, mas também ao livre pensamento. "Se palavras não podem mudar mentes, por que todos estão tão preocupados com o que os filósofos dizem?” questionou um dos comentaristas, enfatizando a ironia de tal repressão em um espaço que deveria ser dedicado à divulgação de ideias inovadoras.

Além disso, o cerceamento do ensino de Platão é visto como parte de um padrão maior dentro da educação no Texas. A universidade nos últimos anos já foi tocada por outros incidentes semelhantes, onde conteúdos considerados progressistas ou liberais foram banidos ou minimizados. Em uma perspectiva mais ampla, a crescente polarização política na sociedade americana começa a se refletir nas salas de aula, gerando preocupações sobre o futuro da educação e a liberdade acadêmica.

No entanto, as repercussões dessa decisão não se restringem ao espaço acadêmico. As discussões sobre as implicações de tais ações se estendem ao público em geral, que observa com crescente preocupação a erosão do espaço para diálogos sobre temas delicados em contextos acadêmicos. Muitos se perguntam o que isso significa para a formação de futuras gerações que podem não ter acesso a debates fundamentais que moldaram o pensamento ocidental.

Embora a Texas A&M não seja a única instituição enfrentando tais questões, a escolha de excluir Platão, um dos pilares da filosofia ocidental, levantou questões crítica sobre o que as universidades devem priorizar e quem define esses limites. Enquanto isso, os defensores do professor Peterson continuam a defender o direito de discutir e ensinar conteúdos que refletem não apenas a história da filosofia, mas também a riqueza da diversidade humana como um todo.

A situação atual é uma chamada ao debate sobre qual deve ser o papel da educação nas sociedades modernas. É necessário considerar se o cerceamento do conhecimento e da discussão filosófica irá, de fato, favorecer um ambiente mais inclusivo ou, paradoxalmente, irá inibir a liberdade de expressão de futuras gerações. Resta ver quais serão os desdobramentos dessa decisão em Texas e qual será a resposta da comunidade acadêmica que continuamente luta pela preservação da liberdade de ensino e reflexão em tempos de mudança.

Fontes: Inside Higher Ed, Texas A&M University

Resumo

A Texas A&M University se envolveu em uma controvérsia ao proibir o professor de filosofia Martin Peterson de incluir trechos de Platão em sua disciplina de “Problemas Morais Contemporâneos”. A chefe do departamento, Kristi Sweeney, solicitou que Peterson removesse obras que abordam temas como identidade de gênero e patriarcado, sob pena de ser realocado. A decisão gerou debates sobre liberdade acadêmica e educação inclusiva, especialmente em relação ao "Mito do Andrógeno" de Aristófanes, que discute a diversidade de identidades humanas. Enquanto alguns alunos expressaram preocupação com a censura à filosofia, outros defendem a necessidade de um currículo mais alinhado com valores contemporâneos. A situação reflete uma polarização crescente nas universidades americanas, levantando questões sobre o futuro da educação e a liberdade de expressão. A exclusão de Platão, um pilar da filosofia ocidental, provoca discussões sobre o que deve ser ensinado e quem define esses limites, destacando a luta contínua pela preservação da liberdade de ensino.

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