26/02/2026, 15:24
Autor: Laura Mendes

Em um recente anúncio, o Talibã apresentou seu novo código penal, que traz à tona uma questão perturbadora sobre a forma como os direitos são tratados no Afeganistão sob seu governo. As novas diretrizes estipulam que agredir uma mulher, como quebrar seu braço, pode resultar em apenas duas semanas de prisão, enquanto maltratar um camelo é punido com cinco meses de reclusão. Essa disparidade revela não apenas o desprezo pela vida e dignidade feminina, mas também a elevadíssima valorização que a cultura afegã dá aos camelos, considerados indispensáveis para o transporte e a agricultura.
A aprovação dessas novas regras surge em um contexto em que o Talibã se esforça para solidificar seu controle após a retirada das forças ocidentais em agosto de 2021. Desde então, têm requerido um retorno ao que consideram "valores tradicionais" islâmicos, intensificando a repressão sobre as mulheres e revertendo décadas de avanços em seus direitos. O novo código penal refrata essa brutalidade, reforçando a noção de que as mulheres são vistas como cidadãs de segunda classe em um sistema que prioriza os direitos dos animais à frente da dignidade humana.
Essa realidade levou muitos a questionar o entendimento de justiça dentro dessa nova ordem. Observadores internacionais e defensores dos direitos humanos expressaram preocupação, enfatizando que a lógica por trás da punição mais dura para o maltrato animal reflete uma sociedade que valoriza os camelos - fundamentais para a vida cotidiana no deserto afegão - acima da saúde e segurança das mulheres. A opressão das mulheres se escancara em igual medida pelas sentenças desiguais e pela cultura enraizada que vê as mulheres como propriedade.
As reações à nova legislação têm sido diversas. Por um lado, aparecem aqueles que criticam a punição leve para a violência contra as mulheres, apontando que o Talibã trata as mulheres como inferior a outras formas de vida. Esses críticos argumentam que ignora não apenas os direitos humanos fundamentais, mas também a saúde e bem-estar das mulheres, cujas vozes e vidas têm sido sistematicamente silenciadas. Por outro lado, há quem tente justificar essa abordagem, afirmando que, em uma sociedade profundamente patriarcal como a afegã, as mulheres são frequentemente vistas como menos valiosas que os animais que dependem diretamente para sobrevivência e trabalho.
Recentemente, tiveram destaque os mecanismos de humor ácido que pessoas têm utilizado para discutir essa questão. Piadas sobre a absurda lógica das lições de moral do Talibã, em que um camelo pode ter mais direitos do que uma mulher, refletem o desespero e a necessidade de comentários sobre a situação ridiculamente trágica em que essas novas leis se inserem. A ideia de que camelos receberão proteções legais mais severas do que os seres humanos é sintoma de uma mentalidade que nega o valor humano. Essa problemática não é uma simples questão de legislação, mas uma questão cultural profundamente enraizada em noções de moralidade que permeiam a sociedade afegã.
Além do foco no tratamento de mulheres e camelos, vale ressaltar a continuação de práticas como o Bacha Bazi – estupros sistemáticos de meninos sob a justificativa de uma cultura que condona tal comportamento. O fato de essa prática ainda ser tolerada, mesmo enquanto o Talibã declara seu opôsto, traz à tona um paradoxo moral que está longe de ser resolvido. Para muitos, a militarização e a repressão das autoridades davam a entender que o Talibã poderia introduzir uma melhora nas condições dos direitos humanos, mas a realidade atual prova que as promessas são vazias.
O sentimento de desespero diante da opressão se intensifica ainda mais quando se percebe como as esperanças de direitos civis e humanos foram rapidamente esfaceladas após o retorno do Talibã ao poder. A visão do mundo que o Talibã propaga é de um local onde questões como o uso de camelos são prioritárias, enquanto a luta das mulheres pela igualdade continua a ser ignorada. Um ano após a retirada das potências ocidentais, o que se tem visto é um cenário de regressão em múltiplas frentes.
Em suma, a proposta de novo código penal é apenas um reflexo das dinâmicas sociais distorcidas que persistem a partir de uma administração que notoriamente falha em entender a dignidade e os direitos das mulheres. Uma liderança que se apresenta não apenas como opressora, mas que busca legitimidade através da continuação de práticas que, por sua vez, refletem um grave desprezo pela vida humana. O desafio, portanto, é resistir a essa naturalização da desumanização que sacrifica os direitos de uma ala já suficientemente oprimida da sociedade. Assim, a luta por direitos no Afeganistão permanece mais urgente do que nunca.
Fontes: BBC, Al Jazeera, Human Rights Watch, The Guardian
Resumo
O Talibã anunciou um novo código penal que revela a disparidade no tratamento dos direitos das mulheres em comparação com os direitos dos animais no Afeganistão. As novas diretrizes preveem penas leves para agressões a mulheres, como duas semanas de prisão por quebrar um braço, enquanto maltratar um camelo pode resultar em cinco meses de reclusão. Essa situação ilustra o desprezo pela dignidade feminina e a valorização excessiva dos camelos, essenciais para a vida no país. Desde a retirada das forças ocidentais em 2021, o Talibã tem intensificado a repressão sobre as mulheres, revertendo décadas de avanços em seus direitos. Críticos apontam que essa legislação reflete uma sociedade que considera as mulheres cidadãs de segunda classe. Além disso, práticas como o Bacha Bazi continuam a ser toleradas, evidenciando um paradoxo moral. O desespero diante da opressão se intensifica, e a luta por direitos no Afeganistão se torna cada vez mais urgente.
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