18/02/2026, 19:47
Autor: Laura Mendes

Nos últimos anos, a discussão sobre o papel da inteligência artificial (IA) na mitigação da crise climática se intensificou. Embora muitas empresas de tecnologia, como o Google, tenham promovido a possibilidade de que a IA poderia ajudar a reduzir significativamente as emissões de gases de efeito estufa, a realidade parece ser mais complexa e preocupante. Especialistas em meio ambiente e tecnologia têm se manifestado sobre o risco de que tais promessas possam ser interpretadas como uma forma de “greenwashing”, um termo que refere-se a práticas enganosas de marketing que sugerem que uma empresa é mais ambientalmente responsável do que realmente é.
Recentemente, foi divulgada a afirmação de que a inteligência artificial poderia contribuir para a redução de 5-10% das emissões globais até 2030. Essa estatística, amplamente promovida por grandes empresas de tecnologia, originou-se de um relatório encomendado por uma das mais influentes consultorias do mundo. O problema é que essa promessa foi desacreditada por muitos especialistas, que argumentam que depender de soluções tecnológicas, sem abordar mudanças fundamentais na estrutura de produção e consumo, não só é ilusório, mas também potencialmente perigoso. A crítica central dessas movimentações reside no fato de que a verdadeira mudança depende de ações substanciais, como políticas públicas que impeçam a poluição e não apenas da adoção de novas tecnologias.
Além disso, alguns especialistas alertam que a própria infraestrutura necessária para suportar a IA, como os data centers, é uma das principais responsáveis pela poluição do planeta. Esses centros consomem grandes quantidades de energia, muitas vezes provenientes de fontes não renováveis, contribuindo significativamente para a emissão de carbono. Essa contradição levanta questões sobre a retórica em torno da IA como solução verde, fazendo com que seu potencial verdadeiro para combater as mudanças climáticas seja questionado.
A crítica ao uso excessivo da tecnologia para resolver problemas ambientais pode também ser vista em um contexto mais amplo. Especialistas defendem que a sociedade já possui um conjunto de ferramentas eficazes para lidar com a crise climática, incluindo o investimento em energias renováveis, a eletrificação do transporte, o uso de bombas de calor e uma redução considerável do consumo de produtos de origem animal. Nesse sentido, muitas vezes, a discussão se desvia do que realmente importa: a implementação de soluções práticas e a alteração de hábitos de consumo.
Também se argumenta que, em vez de esperar que a inteligência artificial traga uma “solução mágica” para a crise, é crucial direcionar esforços para ações que já sabemos serem eficazes. Por exemplo, a taxação sobre grandes emissores de carbono e a regulamentação eficaz de empresas do setor energético são vistas como etapas necessárias que não podem ser negligenciadas. O medo é que a complacência se instale sob a crença de que a IA resolverá problemas complexos, quando, na verdade, o que se precisa são mudanças significativas na política e no comportamento coletivo.
Uma perspectiva mais alarmante levanta a questão das consequências sociais e econômicas dessas promessas tecnológicas. Ao focar as soluções na tecnologia, existe o risco de desconsiderar o impacto humano, como a potencial destruição de empregos. A transição para uma economia sustentável precisa ser inclusiva e equitativa, garantindo que aqueles que podem ser afetados negativamente, como os trabalhadores das indústrias poluentes, sejam apoiados e realocados em empregos mais sustentáveis.
Vários comentaristas destacam que é imprescindível que as empresas não apenas façam promessas sobre o que a tecnologia pode oferecer, mas que se comprometam a implementar ações reais que levem à redução das emissões. Um chamado à responsabilidade ética está se formando, destacando que a inovação não deve ser um substituto para a ação necessária e urgente, mas sim uma ferramenta dentro de um conjunto mais amplo de soluções desejadas.
Por fim, o uso da inteligência artificial na sustentabilidade traz para o debate uma série de desafios e oportunidades. Enquanto a tecnologia pode certamente acelerar e facilitar várias soluções, ela não deve ser vista como o único caminho para resolver uma crise tão complexa e interconectada quanto as mudanças climáticas. É essencial que a conversa sobre IA e meio ambiente se inflacione para além das promessas e passe a englobar um compromisso genuíno com a ação. A mudança de hábitos, práticas políticas reforçadas e a busca por justiça ambiental devem ser parte da agenda de qualquer tentativa de abordar a crise climática com eficácia e responsabilidade.
Fontes: National Geographic, The Guardian, MIT Technology Review
Detalhes
O Google é uma das maiores empresas de tecnologia do mundo, conhecida por seu motor de busca e uma ampla gama de serviços, incluindo publicidade online, software e hardware. Fundado em 1998 por Larry Page e Sergey Brin, o Google se tornou um ícone da inovação tecnológica e é uma subsidiária da Alphabet Inc. A empresa tem se comprometido a operar com energia 100% renovável e investe em iniciativas de sustentabilidade, embora suas operações também sejam criticadas por seu impacto ambiental.
Resumo
A discussão sobre o papel da inteligência artificial (IA) na crise climática tem ganhado destaque, especialmente com a afirmação de que a tecnologia poderia reduzir as emissões globais em 5-10% até 2030. No entanto, especialistas alertam que essa promessa pode ser uma forma de “greenwashing”, onde as empresas aparentam ser mais sustentáveis do que realmente são. A infraestrutura necessária para suportar a IA, como os data centers, consome grandes quantidades de energia, muitas vezes de fontes não renováveis, contribuindo para a poluição. A crítica sugere que a verdadeira mudança depende de ações concretas, como políticas públicas que impeçam a poluição, e não apenas da adoção de novas tecnologias. Além disso, a dependência de soluções tecnológicas pode ignorar o impacto humano, como a perda de empregos. A responsabilidade ética das empresas é enfatizada, destacando que a inovação deve ser uma ferramenta dentro de um conjunto mais amplo de soluções para a crise climática, que inclui mudanças de hábitos e práticas políticas.
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