26/02/2026, 15:25
Autor: Ricardo Vasconcelos

A Rússia está implementando mudanças significativas em sua legislação trabalhista que permitirão a crianças e adolescentes a realização de trabalhos em setores anteriormente considerados perigosos. Essa decisão surge em um contexto de crise demográfica e escassez de mão de obra, exacerbados pela mobilização militar e pela emigração em massa desencadeada pela guerra na Ucrânia. O novo regulamento foi anunciado pelo Ministro do Trabalho, Anton Kotyakov, que declarou que as crianças "poderão ocupar funções em setores que, há duas décadas, eram classificados como arriscados". No entanto, há questionamentos acerca da segurança e das implicações éticas dessa prática.
De acordo com as autoridades russas, as indústrias envolverão condições de trabalho que, segundo alegações, tornaram-se mais seguras ao longo dos anos. O governo argumenta que, em comparação, trabalhar em uma dessas indústrias é "menos perigoso do que ficar na rua", embora os detalhes sobre quais setores seriam afetados ainda não tenham sido divulgados. Isso levanta uma infinidade de questionamentos sobre as reais intenções e os impactos a longo prazo dessa política, que ignora as considerações sobre o bem-estar infantil.
A escassez de mão de obra na Rússia cresceu acentuadamente desde a invasão da Ucrânia em 2022. Com cerca de um milhão de cidadãos russos deixando o país em busca de melhores oportunidades devido à recessão econômica e à insegurança política, o governo agora enfrenta a difícil tarefa de repor a força de trabalho perdida. Estima-se que a Rússia poderá enfrentar uma falta de 2,4 milhões de trabalhadores até 2030, segundo alertas do próprio Ministro Kotyakov.
A decisão de empregar menores em atividades perigosas foi recebida de forma crítica em diversas esferas da sociedade. Especialistas em direitos humanos expressaram preocupação com as potenciais consequências dessa prática. A adoção de crianças como mão de obra em setores arriscados pode levar a consequências adversas ao desenvolvimento de jovens, com riscos elevados de acidentes e exploração.
Este movimento ilustra um panorama sombrio da demografia russa, onde a uma já significativa evasão de jovens se junta a incerteza sobre o futuro dos que permanecem. Conforme as forças armadas se mobilizam, a Rússia perde não apenas soldados, mas também trabalhadores que são fundamentais para a economia. A guerra teve um impacto devastador, resultando na perda de milhares de vidas e na falta de homens qualificados. Especialistas indicam que a escassez de mão de obra não cessará no futuro imediato e que as soluções imediatas, como a introdução de trabalhadores menores, podem apenas agravar a já deteriorada situação demográfica do país.
O clima de desespero que permeia a estratégia governamental reflete uma visão utilitarista da população, considerando os cidadãos apenas como um recurso a ser explorado. Essa racionalidade gera receios, já que a segurança, saúde e direitos humanos são frequentemente secundarizados em prol de uma resposta rápida à situação de crise. A liderança russa aparentemente optou por uma abordagem de "adiar o inevitável", utilizando a força de trabalho jovem para lidar com a escassez crescente sem considerar as consequências a longo prazo.
Muitos observadores acreditam que a inversão de demografia e a falta de planejamento estratégico no uso da força de trabalho indicam uma grave fraqueza do governo russo. Alguns comentadores apontam que a falta de iniciativas eficazes para a reintegração de cidadãos que deixaram o país, combinada com a adoção de políticas que não protegem os direitos humanos, pode levar ao colapso social e econômico.
A situação atual lança uma sombra sobre não só a integridade do sistema de trabalho na Rússia, mas também sobre a segurança e a qualidade de vida das futuras gerações. De fato, ao permitir que crianças trabalhem em condições de risco, o governo está se colocando em uma trajetória que pode prejudicar profundamente a coesão social e o futuro econômico da nação.
Enquanto isso, a comunidade internacional observa, intervindo em fóruns globais e exigindo uma revisão dessa nova legislação que ignora compromissos com os direitos da criança. A resposta da Rússia aos apelos externos permanecerá um ponto de interrogação, diante de um governo que demonstrou resiliência em resistir a pressões externas em nome de interesses nacionais. As condições em que esses jovens trabalhadores serão empregados e as implicações dessa decisão sobre o futuro da Rússia são preocupantes, exigindo uma análise crítica e uma atenção contínua das autoridades e da sociedade civil.
Fontes: BBC News, The New York Times, RAND Corporation
Resumo
A Rússia está alterando sua legislação trabalhista para permitir que crianças e adolescentes trabalhem em setores considerados perigosos, uma medida que surge em meio a uma crise demográfica e escassez de mão de obra. O Ministro do Trabalho, Anton Kotyakov, afirmou que as novas regras visam melhorar a situação do emprego, alegando que as condições de trabalho se tornaram mais seguras. No entanto, a decisão gerou críticas de especialistas em direitos humanos, que alertam sobre os riscos à segurança e ao desenvolvimento infantil. A escassez de mão de obra na Rússia aumentou desde a invasão da Ucrânia, com cerca de um milhão de cidadãos deixando o país. Estima-se que a Rússia poderá enfrentar uma falta de 2,4 milhões de trabalhadores até 2030. A adoção de crianças como mão de obra em setores arriscados levanta preocupações sobre a exploração e as consequências a longo prazo para a sociedade. A comunidade internacional está atenta a essa mudança, exigindo uma revisão da nova legislação que compromete os direitos da criança.
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