26/04/2026, 12:42
Autor: Laura Mendes

O Rio Grande do Sul (RS) tem se destacado nos últimos anos como o estado brasileiro com a maior proporção de pessoas que se identificam como praticantes das religiões de Umbanda e Candomblé, conforme indicam dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa realidade surpreende, especialmente considerando a tradição de sincretismo religioso encontrado em estados como Bahia e Rio de Janeiro, onde essas religiões africanas têm raízes mais profundas e uma história rica.
Um dos fatores que contribuem para essa marca no RS é a dinâmica social e cultural do estado. Diferente do que muitos imaginam, sua demografia é bastante diversificada. Embora a população negra seja proporcionalmente menor em comparação com estados do Nordeste, como a Bahia, muitos praticantes dessas religiões autodeclaradas no RS pertencem a grupos sociais e raciais variados. Como alguns comentários indicam, muitos praticantes de Umbanda e Candomblé se identificam abertamente com suas crenças, encontrando um ambiente de respeito e tolerância em sua comunidade local. Isso é notável em aulas e ambientes escolares, onde alunos de diferentes origens religiosas interagem pacificamente sem preconceitos explícitos.
Na verdade, o respeito mútuo no contexto educacional é um aspecto que se destaca nas conversas entre estudantes, independentemente de suas convicções pessoais. Relatos de alunos e professores indicam que, no ambiente escolar do Rio Grande do Sul, há uma aceitação forte da diversidade religiosa, com umbandistas e evangélicos coexistindo de maneira harmônica, algo que nem sempre é a norma em outras partes do Brasil.
De acordo com especialistas em religiosidade, como professores da área de Ciências da Religião, essa aceitação no Sul pode estar ligada também ao histórico da região e às suas particularidades culturais. O projeto de colonização da região, somado à presença de uma população diversificada que contempla não apenas imigrantes europeus, mas também descendentes de africanos e indígenas, permitiu a formação de uma identidade regional mais plural, onde a prática de religiões de matriz africana ganhou espaço. Além disso, o estado é conhecido por manter tradições indígenas e africanas que alinham-se mais facilmente ao cotidiano dos habitantes, resultando em uma expressão cultural que é ao mesmo tempo única e inclusiva.
Por outro lado, importantes relatos indicam que esta popularidade das religiões afro-brasileiras no RS não necessariamente é sinônimo de ausência de preconceito. Um dos comentários mais contundentes aponta para o fato de que a aceitação dessas crenças entre a população branca é geralmente vista de forma diferente do que entre os negros. O fenômeno da aceitação da Umbanda e do Candomblé por pessoas brancas pode decorrer de um processo de "branqueamento" cultural, onde as tradições são vistas como mais palatáveis quando praticadas por indivíduos não negros, refletindo uma crítica social ao racismo estrutural ainda presente na sociedade brasileira.
Além disso, a história das comunidades africanas que trouxeram suas práticas religiosas para o Sul do Brasil, especificamente durante o período da escravidão, também traz questionamentos sobre a preservação dessas tradições e sobre o impacto da colonização e do cristianismo em culturas indígenas e africanas. É relevante destacar que a prática de cultos de matriz africana, quando expressa por pessoas de outras etnias, é vista com mais aceitação cultural, como indicado por um participante em discussões sobre o tema. Esse fato evidencia um paradoxo que ainda desafia a sociedade brasileira em suas relações raciais e religiosas.
A ausência de um forte controle social e religioso, como o observado em alguns estados brasileiros, também pode contribuir para essa dinâmica favorável à diversidade no Rio Grande do Sul. A presença menos predominante de líderes religiosos que promovem uma abordagem mais conservadora, como certas figuras evangélicas, é um fator que gera a possibilidade de diferentes tradições coexistirem pacificamente.
Além disso, na região em que o RS se localiza, histórico de resistência e de reclusão das práticas religiosas afro-brasileiras se destaca, revelando uma cultura que foi moldada por influências africanas, indígenas e européias ao longo dos séculos. O isolamento histórico do estado, particularmente no período colonial e no ciclo do charque, também deixou seu legado na formação da identidade cultural local.
Esses aspectos mostram como o Rio Grande do Sul não está apenas competitivamente conquistando a frente em termos de população autodeclarada de Umbanda e Candomblé, mas também apresenta um contexto complexo que lida com a intersecção de raça, religião e cultura de maneira que continua a evoluir. Assim, enquanto o estado se firma como um centro significativo para a prática dessas religiões, os desafios e contradições persistem, refletindo as complexidades de uma sociedade que ainda navega pela construção de sua identidade plural.
Fontes: Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
Resumo
O Rio Grande do Sul (RS) se destaca como o estado brasileiro com a maior proporção de pessoas que se identificam como praticantes das religiões de Umbanda e Candomblé, segundo dados do IBGE. Essa realidade é surpreendente, considerando a forte tradição dessas religiões em estados como Bahia e Rio de Janeiro. A diversidade demográfica do RS, com praticantes de diferentes grupos sociais e raciais, contribui para essa aceitação, especialmente em ambientes escolares, onde há uma interação pacífica entre alunos de diversas crenças. Entretanto, a popularidade das religiões afro-brasileiras no RS não elimina o preconceito, especialmente em relação à aceitação dessas práticas entre a população branca. Especialistas sugerem que a aceitação de tradições afro-brasileiras por pessoas não negras pode ser vista como um processo de "branqueamento" cultural. Além disso, a história da escravidão e a colonização impactaram a preservação dessas tradições. A menor presença de líderes religiosos conservadores no RS também favorece a coexistência pacífica de diferentes tradições. O estado, portanto, é um centro significativo para a prática de Umbanda e Candomblé, enfrentando desafios relacionados à intersecção de raça, religião e cultura.
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