17/01/2026, 09:40
Autor: Ricardo Vasconcelos

No cenário atual, onde as tensões geopolíticas são palpáveis, a Rússia sob à liderança de Vladimir Putin está fazendo uma aposta significativa no Ártico, focando na Rota do Mar do Norte como uma nova e promissora alternativa ao Canal de Suez. A rota, amplamente considerada como o "Caminho da Seda Polar", está sendo cada vez mais utilizada como uma estratégia para o Kremlin reduzir a vulnerabilidade de sua infraestrutura marítima e as potenciais sanções impostas pelo Ocidente. Com o aumento da temperatura global e a consequente redução do gelo marinho, a Rota do Mar do Norte tornou-se uma opção viável e atrativa para o comércio internacional, especialmente entre o Nordeste da Ásia e o Noroeste da Europa.
A Rota do Mar do Norte se estende pela costa norte da Rússia, desde o Estreito de Kara, a oeste, até o Estreito de Bering, a leste. Durante o verão, as condições favoráveis podem diminuir em até 40% os tempos de trânsito em relação ao Canal de Suez, tornando essa rota cada vez mais tentadora para os operadores de transporte, especialmente no contexto de crescente pressão geopolítica sobre os canais tradicionais. O governo russo percebeu a oportunidade de monetizar a infraestrutura ártica, como os portos em Sabetta e Pevek, fundamentais para as exportações de gás e petróleo da Rússia.
As empresas de transporte chinesas já estão se mobilizando: em 2025, um recorde de 14 viagens de contêiner foram completadas ao longo da Rota do Mar do Norte em comparação com 11 viagens no ano anterior. Essa colaboração entre Rússia e China é reforçada por um plano de ação que visa desenvolver serviços de quebra-gelo, aprimorar sistemas de navegação e coordenar ações de busca e resgate. A Rota do Mar do Norte não apenas reduz o tempo de trânsito, mas também se conecta diretamente à ambiciosa Iniciativa do Cinturão e Rota da China, estabelecendo um corredor norte que evita as rotas mais controladas pelo Ocidente, como o Canal de Suez, o estreito de Bab el-Mandeb e o estreito de Malaca.
No entanto, essa ambição da Rússia enfrenta desafios significativos. As operações durante todo o ano na rota dependem de quebra-gelos nucleares, cuja operação é cara e limitada. A Rússia tem planos de expandir sua frota de quebra-gelos, mas as incertezas nos prazos de entrega e nos custos tornam essa meta ambiciosa. O gelo pode variar drasticamente de ano para ano, e os altos prêmios de seguro, além do risco contínuo de sanções, dificultam a operações para grandes investidores internacionais.
Além disso, os riscos ambientais adicionam outra camada de complexidade às ambições de Putin. Com o aumento do tráfego de navios, a possibilidade de derramamentos de petróleo e poluição em um ecossistema ártico já delicado se torna uma preocupação crescente. Apesar do Kremlin poder não priorizar essas questões, elas permanecem um fator relevante na estratégia de longo prazo.
O uso da Rota do Mar do Norte por Putin não é apenas uma tentativa de criar um caminho mais barato, mas uma manobra calculada para redesenhar a dinâmica do comércio global e reforçar o poder geopolítico na região. Em 2024, apesar de não atingir sua meta de 80 milhões de toneladas, a carga passou de 37,9 milhões de toneladas durante o ano, destacando um crescimento significativo no transporte de bens não russos. Esse impulso tem continuidade em 2025, quando a Rússia mobilizou de maneira inédita toda a sua frota de quebra-gelos nucleares.
Entretanto, esse sucesso futuro da Rota do Mar do Norte depende de várias incógnitas, como as condições de gelo, fluxos de investimento confiáveis e a força de um relacionamento de longo prazo entre a Rússia e a China. O apoio da China não é apenas uma fonte vital de investimento, mas também um mercado essencial para os recursos energéticos russos, especialmente após a drástica perda de compradores europeus devido a sanções. Para Putin, a confiança na colaboração da China pode ser um jogo arriscado, especialmente conforme as dinâmicas internacionais continuam a evoluir.
Com todas essas variáveis em jogo, a Rota do Mar do Norte representa não apenas uma rota comercial emergente, mas uma chave para a Russia em sua busca por um papel mais proeminente na economia e política global. A visão de Putin de um "Caminho da Seda Polar" pode se consolidar como um novo paradigma no comércio internacional, ou se desviar sob as pressões e incertezas que caracterizam o ambiente geopolítico contemporâneo. O futuro da Rota do Mar do Norte permanece indefinido, mas indubitavelmente seguirá como um ponto focal para a ambição russa no Ártico.
Fontes: The Guardian, Folha de São Paulo, Reuters
Detalhes
Vladimir Putin é o presidente da Rússia, cargo que ocupa desde 2012, após ter sido primeiro-ministro de 2008 a 2012. Ele é uma figura central na política russa e é conhecido por suas políticas autoritárias, controle sobre a mídia e ações geopolíticas agressivas, como a anexação da Crimeia em 2014. Putin tem buscado expandir a influência da Rússia no cenário global, especialmente na Ásia e no Ártico.
A Rota do Mar do Norte é uma via marítima que se estende ao longo da costa norte da Rússia, do Estreito de Kara ao Estreito de Bering. Considerada uma alternativa estratégica ao Canal de Suez, essa rota está se tornando cada vez mais viável devido ao derretimento do gelo marinho causado pelas mudanças climáticas. Ela promete reduzir significativamente os tempos de trânsito entre a Europa e a Ásia, mas enfrenta desafios relacionados à infraestrutura e ao meio ambiente.
Resumo
A Rússia, sob a liderança de Vladimir Putin, está investindo na Rota do Mar do Norte como uma alternativa ao Canal de Suez, buscando reduzir a vulnerabilidade de sua infraestrutura marítima e as sanções ocidentais. Com o aquecimento global diminuindo o gelo marinho, essa rota se torna uma opção viável para o comércio internacional, especialmente entre a Ásia e a Europa. A Rota do Mar do Norte, que se estende pela costa russa, pode reduzir os tempos de trânsito em até 40% durante o verão, atraindo empresas de transporte, principalmente da China. No entanto, a Rússia enfrenta desafios, como a necessidade de quebra-gelos nucleares caros e os riscos ambientais associados ao aumento do tráfego marítimo. Apesar do crescimento no transporte de bens, a dependência da colaboração com a China e as incertezas nas condições de gelo e investimentos tornam o futuro da rota incerto. A Rota do Mar do Norte pode redefinir o comércio global, mas sua viabilidade depende de múltiplas variáveis geopolíticas e econômicas.
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