04/05/2026, 12:00
Autor: Ricardo Vasconcelos

Recentemente, o debate sobre o papel das potências médias na ordenação da geopolítica global ganhou destaque, especialmente em meio a crises como a do Irã. A discussão foi aprofundada por C. Raja Mohan, que argumenta que a incapacidade das potências médias em moldar a ordem mundial é evidente na recente crise que envolve interesses divergentes e dependências de segurança. Seu ponto central é que a dinâmica atual continua a ser dominada pela rivalidade entre os grandes poderes, particularmente os Estados Unidos e a China, deixando pouco espaço para a ação eficaz de países considerados médios.
Mohan observa que, com a eclosão do conflito no Irã, as iniciativas diplomáticas, que contavam com a participação de potências como o Canadá e membros da União Europeia, rapidamente se fragmentaram, revelando não apenas a falta de unidade entre os países envolvidos, mas também suas dependências em relação a potências maiores. As chamadas para uma ação coletiva, que poderiam ter sido uma oportunidade para a afirmação das potências médias, cederam a um cenário dominado por decisões de Washington. O autor sugere que, em última análise, a ordem global ainda é moldada pela força militar e pelas decisões estratégicas tomadas pelos maiores jogadores, como os EUA e Israel.
Um dos comentários que se destacou na análise crítica dessa situação questiona a visão de que potências médias são, por definição, irrelevantes. Um comentarista argumenta que a realidade histórica demonstra que coalizões e alianças podem, sim, desequilibrar a balança e que a União Europeia é um exemplo claro disso. Como um conjunto de potências médias que agem coletivamente, a UE conseguiu moldar a agenda global de várias maneiras. Esse argumento suscita a reflexão sobre a importância de uma abordagem mais colaborativa e menos hierárquica nas relações internacionais.
Em contrariedade a Mohan, outro comentário observa que potências médias podem, de fato, negar a possibilidade de que outras potências, especialmente as maiores, moldem unilateralmente a ordem global. Esse ponto reforça a ideia de que as dinâmicas de poder estão em constante evolução e que as potências médias têm a capacidade de influenciar as decisões se atuarem em conjunto. Não se trata apenas de um jogo de poder individual, mas de uma complexa rede de interações que pode restringir escolhas e ditar diretrizes, mesmo que de maneira sutil.
Um dos pontos levantados é a crítica ao fato de que as potências maiores, incluindo os EUA, ainda parecem impotentes quando se trata de resolver crises significativas, como a do Afeganistão anos atrás. Isso leva a crer que, mesmo ao concentrar poder militar e influência, as grandes potências muitas vezes enfrentam limitações em suas ações e são puxadas para uma negociação em nível internacional. Por isso, a visão de que a hierarquia de poder internacional se mantém inalterada pode ser questionada.
A discussão se aprofunda com a provocação de que países menores, como Israel, têm utilizado suas relações com os EUA para criar instabilidade, uma crítica que evidencia a necessidade de um olhar mais atento às alianças e seus impactos em crises internacionais. Se os EUA detivessem poder suficiente, argumenta-se, não haveria a necessidade de longas negociações.
Esses argumentos geram um espaço fértil para reflexões sobre o futuro do relacionamento entre potências médias e grandes, especialmente em um contexto em que as crises se tornam mais frequentes e complexas. A emergência de novas coalizões e a redefinição de estratégias poderão revelar caminhos para que potências médias reafirmem sua relevância. Contudo, essas mudanças levarão tempo e exigir um planejamento cuidadoso, uma vez que a geopolítica não se transforma da noite para o dia.
Em suma, as potências médias de fato enfrentam desafios significativos, mas não são irrelevantes e têm o potencial de influenciar a ordem mundial, desde que trabalhem unidas e desenvolvam suas estratégias de maneira eficaz. A verdadeira questão que permanece é como essas potências poderão navegar pelas limitações impostas pelas dinâmicas existentes e, ao mesmo tempo, explorar novas oportunidades para não apenas serem ouvidas, mas para moldar um futuro mais equilibrado e colaborativo no cenário global.
Fontes: Folha de São Paulo, O Estado de S. Paulo, The New York Times
Resumo
O debate sobre o papel das potências médias na geopolítica global ganhou destaque, especialmente em crises como a do Irã. C. Raja Mohan argumenta que a incapacidade dessas potências em moldar a ordem mundial é evidente, com a dinâmica dominada pela rivalidade entre os EUA e a China. A crise no Irã revelou a fragmentação das iniciativas diplomáticas que envolviam potências médias, evidenciando suas dependências em relação a potências maiores. Embora haja críticas à ideia de que potências médias são irrelevantes, alguns argumentam que coalizões, como a União Europeia, podem influenciar a agenda global. Além disso, potências médias têm o potencial de desafiar a hegemonia das grandes potências se atuarem em conjunto. A discussão destaca que, mesmo com poder militar, as grandes potências enfrentam limitações em resolver crises. A análise sugere que as potências médias podem reafirmar sua relevância, mas isso exigirá tempo e planejamento cuidadoso, já que a geopolítica é um campo em constante evolução.
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