24/03/2026, 14:27
Autor: Ricardo Vasconcelos

Em uma audiência realizada na quarta-feira, Tulsi Gabbard, Diretora de Inteligência Nacional dos Estados Unidos, chamou a atenção para uma crescente preocupação sobre as capacidades nucleares e de mísseis do Paquistão. A declaração ocorreu durante a apresentação da Avaliação Anual de Ameaças de 2026 ao Comitê de Inteligência do Senado, onde Gabbard listou o Paquistão entre outros países como Rússia, China, Coreia do Norte e Irã, que desenvolvem sistemas de entrega de mísseis que potencialmente podem atingir o território americano. O foco nas capacidades do Paquistão reacendeu debates sobre a segurança internacional, especialmente em relação ao papel histórico do país na política externa dos EUA.
O alerta de Gabbard não é apenas uma exibição de retórica política; é uma lembrança de que os desafios enfrentados pelos Estados Unidos em termos de segurança estão se diversificando e se complexificando. Desde os anos 2000, os EUA têm expressado preocupações sobre o Paquistão, um país visto como uma “junta com armas nucleares”, que tem contribuído para a instabilidade na região. A relação de cooperação entre Washington e Islamabad em questões de combate ao terrorismo sempre foi uma faca de dois gumes, onde o Paquistão frequentemente jogou um jogo duplo, abrigando elementos radicais. Isso criou uma situação onde a confiança entre as nações, embora interligadas, é frequentemente testada.
Gabbard salientou que as capacidades de desenvolvimento de mísseis balísticos do Paquistão podem potencialmente incluir ICBMs, tornando real a possibilidade de atingir alvos na América. Especialistas afirmam que a inclusão do Paquistão na lista de ameaças nucleares reflete uma continuidade das políticas restritivas da administração Biden, com sanções e pressões sobre entidades paquistanesas visando limitar o acesso a novas tecnologias. Shuja Nawaz, acadêmico baseado em Washington, observou que muitas análises públicas delimitaram o alcance do míssil Shaheen-III do Paquistão a menos de 2.800 quilômetros e que a postura estratégica de Islamabad se concentra predominantemente em contrabalançar a Índia, que possui um arsenal nuclear próprio.
Esse foco no Paquistão levanta questões sobre a segurança no cenário de tensão entre as potências nucleares. Gabbard e Nawaz concordam que a retórica militarista em relação ao Paquistão pode prejudicar a relação já delicada entre os dois países, especialmente em um momento em que o Paquistão procura expandir sua influência na cena global, mantendo laços amigáveis com diversas nações muçulmanas que sustentam sua posição financeira e política. O relacionamento em ascensão entre os EUA e o Paquistão está sob a sombra de velhas desconfianças e análises de inteligência que perpetuam uma imagem negativa sobre Islamabad.
A situação também reflete um dilema histórico: enquanto os EUA tentavam equilibrar suas relações com o Paquistão, a preocupação com a segurança e o terrorismo se tornou um fator preponderante nas avaliações estratégicas. A narrativa da luta contra o terrorismo, bem como as interações de Islamabad com grupos extremistas, continuam a eclipsar as discussões sobre as capacidades de mísseis e a coragem da comunidade internacional em abordar esses desafios de forma colaborativa. O discurso militaroso, embora possa ser atraente como forma de reafirmar a posição dos EUA, pode levar a um ciclo de inimizades desnecessárias e desconfianças, prejudicando qualquer progressão em direções pacíficas.
Com o desenvolvimento de armas nucleares não sendo uma questão nova no teatro internacional, os Estados Unidos têm a tarefa de navegar nesta intricada rede de relações internacionais, onde cada movimento de um país pode ter repercussões significativas em outras nações. O discurso sobre ameaças nucleares, por sua vez, deve ser acompanhado por um compromisso com a diplomacia e o diálogo, pois o mundo já testemunhou as consequências de estratégias motivadas pelo medo. Para a administração Biden e para as próximas gerações de líderes mundiais, a habilidade de mudar a narrativa de antagonismo para uma abordagem que busque soluções conjuntas será fundamental.
Neste cenário, o futuro das relações entre o Paquistão e os EUA pode depender não apenas da capacidade de mísseis, mas também do entendimento mútuo de que a segurança e estabilidade globais fazem parte de uma agenda mais ampla que não pode ser deixada ao acaso. A vigilância é necessária, mas a disposição para o diálogo pode garantir que o aumento da capacidade militar do Paquistão não se traduza em um novo ciclo de hostilidade, mas sim em uma oportunidade para redefinir os termos da cooperação bilateral.
Fontes: CNN, The Washington Post, Reuters, Al Jazeera
Detalhes
Tulsi Gabbard é uma política americana e ex-congressista pelo estado do Havai. Ela serviu como Diretora de Inteligência Nacional dos Estados Unidos e é conhecida por suas posições progressistas em questões de política externa e defesa. Gabbard ganhou notoriedade por seu ativismo contra a guerra e sua crítica às intervenções militares dos EUA, além de ser a primeira mulher hindu a servir no Congresso dos EUA.
Resumo
Durante uma audiência no Senado dos EUA, Tulsi Gabbard, Diretora de Inteligência Nacional, expressou preocupações sobre as capacidades nucleares e de mísseis do Paquistão, destacando que o país é uma das várias nações, incluindo Rússia e China, que desenvolvem sistemas de entrega de mísseis que podem atingir o território americano. Gabbard enfatizou que a situação do Paquistão, frequentemente vista como uma "junta com armas nucleares", é complexa devido à sua relação ambígua com os EUA, que inclui cooperação no combate ao terrorismo, mas também desconfiança. Especialistas afirmam que a inclusão do Paquistão entre as ameaças nucleares reflete as políticas da administração Biden, que buscam limitar o acesso do país a novas tecnologias. A retórica militarista pode prejudicar as relações entre os dois países, especialmente em um momento em que o Paquistão busca expandir sua influência global. A narrativa sobre as capacidades de mísseis do Paquistão deve ser equilibrada com esforços diplomáticos, pois a segurança e a estabilidade globais exigem diálogo e compreensão mútua.
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