24/03/2026, 17:00
Autor: Ricardo Vasconcelos

Nos últimos dias, a questão da reforma agrária no Brasil voltou a ser foco de discussões intensas, uma vez que levantamentos indicam que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva desapropriou menos terras para reforma agrária nos últimos três anos do que o governo do ex-presidente Michel Temer. Essa revelação é particularmente alarmante em um contexto em que a reforma agrária é vista como uma necessidade premente para a promoção da justiça social e do desenvolvimento sustentável no país. O orçamento destinado a essa iniciativa em 2023, por exemplo, foi estipulado em meros 406 milhões de reais. Essa quantia é considerada por muitos especialistas como insuficiente, especialmente em um Congresso dominado por interesses ruralistas que resistem a um aumento significativo desse orçamento.
Enquanto um dos objetivos do governo Lula deveria ser o fortalecimento da política agrária e a recuperação das funções do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), críticos observam que as prioridades do mandatário podem estar desalinhadas. Existiram críticas notáveis sobre a falta de mobilização em apoio às políticas concretas de reforma agrária. Para alguns comentaristas, a habilidade do presidente em articular esses interesses e reunir apoio popular parece ter diminuído, culminando em um cenário em que ações significativas e eficazes não se concretizam.
Uma das preocupações levantadas é a comparação inequivocável entre o que se fez em termos de desapropriações nos governos de Lula e Temer. Embora o governo de Temer tenha sido associado à descontinuação do ministério responsável pela reforma agrária e ao desmonte do INCRA, há aqueles que argumentam que, sob sua administração, houve desapropriações que poderão ter sido concluídas a partir de processos iniciados em administrações anteriores. Isto levanta um importante debate sobre a continuidade burocrática e o tempo necessário para efetivar a reforma agrária – um processo demorado que muitas vezes envolve terrenos que já estavam em processo de desapropriação muito antes das atuais administrações.
Além disso, a crítica ao governo Lula não se restringe apenas à falta de desapropriações, mas também à maneira como as prioridades têm sido geridas. Existem observações sobre o tempo e capital político que o presidente tem investido em questões internacionais, como a guerra da Ucrânia, em detrimento de questões internas urgentes. Esse aparente desvio de atenção tem gerado frustração inclusive entre os próprios apoiadores do governo, que pedem uma abordagem mais proativa em relação à reforma agrária e a mobilização para dar vazão a essas demandas.
Ademais, existe uma sensação crescente de que políticas mais sérias e abrangentes são necessárias para enfrentar a desigualdade no acesso à terra e os problemas relacionados à posse e uso. Há um clamor crescente por uma verdadeira reforma agrária que ofereça terras suficientes para as famílias, especialmente considerando que estudos apontam que até 5 hectares por habitante poderiam ser viáveis no Brasil sem comprometer a produção e a economia agrícola. Essa demanda por uma reforma estruturada se torna ainda mais significativa em contextos onde áreas infinitas de terra permanecem improdutivas ou são ocupadas irregularmente.
A edificação de uma política agrária eficaz é essencial, não apenas do ponto de vista da justiça social, mas também da segurança alimentar e do incentivo ao desenvolvimento econômico rural. A reforma agrária poderia possuir um impacto positivo muito além da simples redistribuição de terras, engajando-se como uma ferramenta de promoção do desenvolvimento econômico, da inclusão social e do fortalecimento da democracia.
Enquanto os desafios da reforma agrária persistem e a gestão política atual enfrenta pressões tanto internas quanto externas, a necessidade de um diálogo repleto de novas ideias e propostas concretas sobre a distribuição da terra no Brasil é mais urgente do que nunca. É imperativo que o governo encontre uma maneira de harmonizar suas prioridades e atender a essas demandas, criando assim um caminho mais claro e justo para a população. Somente através de um forte compromisso com a reforma agrária, o Brasil será capaz de avançar em direção a um modelo de desenvolvimento que beneficie todos, e não apenas uma minoria privilegiada.
Fontes: Folha de São Paulo, UOL, Estadão
Detalhes
Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido como Lula, é um político brasileiro e ex-presidente do Brasil. Ele foi presidente de 2003 a 2010 e é um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT). Lula é reconhecido por suas políticas de combate à pobreza e inclusão social, mas também enfrenta críticas e desafios, especialmente em relação à reforma agrária e à gestão de prioridades políticas.
Michel Temer é um político brasileiro que serviu como presidente do Brasil de 2016 a 2018, após o impeachment de Dilma Rousseff. Ele é membro do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e, durante seu governo, implementou uma agenda de reformas econômicas e cortes de gastos. Sua administração foi marcada por controvérsias e críticas, especialmente em relação à reforma agrária e ao desmonte de políticas sociais.
O INCRA é uma autarquia brasileira vinculada ao Ministério da Agricultura, responsável pela execução da política de reforma agrária no país. Criado em 1970, o INCRA tem como objetivo promover a redistribuição de terras e a regularização fundiária, buscando garantir o acesso à terra para famílias de trabalhadores rurais. A eficácia do INCRA tem sido frequentemente debatida em relação às suas ações e orçamentos.
Resumo
A reforma agrária no Brasil voltou a ser um tema central de debate, especialmente após dados que mostram que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva desapropriou menos terras para essa finalidade nos últimos três anos do que o governo de Michel Temer. Com um orçamento de apenas 406 milhões de reais para 2023, muitos especialistas consideram essa quantia insuficiente, especialmente em um Congresso dominado por interesses ruralistas. Críticos apontam que as prioridades do governo Lula podem estar desalinhadas, com uma aparente falta de mobilização em torno das políticas de reforma agrária. Além disso, a comparação entre os dois governos levanta questões sobre a continuidade dos processos de desapropriação. Há uma crescente demanda por uma reforma agrária mais abrangente, que não apenas redistribua terras, mas também enfrente a desigualdade no acesso à terra e promova o desenvolvimento econômico rural. A construção de uma política agrária eficaz é vista como essencial para a justiça social e a segurança alimentar no Brasil.
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