18/03/2026, 16:13
Autor: Ricardo Vasconcelos

Em um evento que já é considerado controverso na arena política internacional, Kim Jong Un foi reeleito com impressionantes 99,93% dos votos em uma aparente demonstração de apoio. No entanto, a quantidade surpreendente de apenas 0,07% de votos negativos gerou debates sobre a verdadeira natureza dessas eleições e o estado da democracia na Coreia do Norte.
O processo eleitoral na Coreia do Norte, frequentemente rotulado como um simulacro de democracia, tem sido objeto de críticas há anos. As eleições são realizadas dentro de um único partido, em um contexto onde a liberdade de escolha é praticamente inexistente. Na prática, os cidadãos têm a opção de votar em Kim Jong Un ou deixar um voto em branco, em uma escolha que é mais simbólica do que representativa. Essa situação gera uma série de preocupações sobre a manipulação de dados eleitorais e a criação de um ambiente que desencoraja a verdadeira dissidência.
No último pleito, a participação da população norte-coreana — estimada em 25 milhões — poderia, teoricamente, justificar uma quantidade muito maior de votos dissidentes. Assumindo que a maioria dos cidadãos está apta a votar a partir dos 18 anos, isso significa que, na melhor das hipóteses, cerca de 19 milhões de eleitores poderiam ter se manifestado. Portanto, mais de 17.500 votos negativos deveriam ter sido contabilizados se realmente houvesse uma verdadeira escolha eleitoral.
Os críticos sugerem que essa discrepância se presta a um objetivo claro: manter a ilusão de um regime que ainda respeita algum nível de participação popular e dissidência. É uma estratégia que busca não apenas legitimar a autoridade de Kim, mas também desviar a atenção de possíveis levantamentos e questionamentos a respeito da governança do país. Essa abordagem foi observada em outros regimes autoritários ao redor do mundo, onde resultados eleitorais que indicam uma forte oposição são manipulados para parecer mínimas como uma forma de evitar turbulências sociais.
Diversos comentários sobre a eleição implicam que até mesmo o número de dissidentes é uma construção, potencialmente uma manobra para mostrar que uma pequena parte da população ainda tem uma opinião que se opõe ao governo, mas que é negativa o suficiente para não gerar temor entre a população em geral. Acredita-se que este conceito permita que o regime opere com mais liberdade de ação — mantendo um controle absoluto enquanto ainda dá a impressão de que os cidadãos têm algum poder de resposta.
A história da Coreia do Norte é marcada por uma guerra que dividiu a península em duas realidades completamente diferentes. O Sul, caracterizado por um modelo democrático sob a influência americana, se opõe ao Norte, onde o socialismo é imposto por meio da força. Essa dualidade tem sido um elemento central na narrativa da propaganda que sustenta Kim Jong Un e seu governo. Ao articular as críticas contra a "hegemonia americana", o regime tenta criar uma narrativa de resistência, um tema que ressoa fortemente entre os cidadãos que, de outro modo, enfrentam um controle severo sobre suas vidas.
Além disso, a manipulação dos resultados eleitorais também levanta a questão sobre a efetividade da dissidência no país. Um percentual muito baixo de votos contra Kim permite que o regime deslegitimizem qualquer tipo de movimento de oposição, minimizando o impacto de qualquer resistência popular. Ao manter os números baixos, Kim e seu governo podem afirmar que essas vozes não têm relevância, reforçando sua narrativa de que a maioria está com eles, e que aqueles que não estão são apenas uma minoria insignificante que deve ser ignorada (ou eliminada).
Por outro lado, as implicações dessas eleições vão além da Coreia do Norte. Elas refletem um padrão mais amplo que pode ser visto em várias democracias falsas ao redor do mundo. Regimes que buscam garantir a continuidade do poder muitas vezes implementam táticas semelhantes para desmassificar qualquer semblante de oposição, levando a uma erosão gradual dos princípios democráticos.
Enquanto a atenção internacional se concentra na Coreia do Norte, os observadores discutem a necessidade de um monitoramento mais rigoroso do que constitui realmente uma "democracia" e dos direitos dos cidadãos. O verdadeiro desafio é garantir que a voz dos cidadãos, mesmo que residual, continue a ser ouvida — e que eles possam, eventualmente, inspirar um movimento genuíno em busca de mudanças no cenário político.
Assim, a reeleição de Kim Jong Un com um percentual que faz parecer que a dissidência é quase inexistente resta como um exemplo de como a ilusão de poder pode ser manipulada em favor de regimes totalitários, perpetuando um ciclo vicioso de opressão e controle sobre a população. Enquanto o mundo observa, o teste mais significativo para a Coreia do Norte pode não ser as próximas eleições, mas a capacidade de sua população em reivindicar existências mais significativas e libertadoras.
Fontes: BBC News, Al Jazeera, The Guardian
Detalhes
Kim Jong Un é o líder supremo da Coreia do Norte desde 2011, sucedendo seu pai, Kim Jong Il. Ele é conhecido por seu regime autoritário e por manter um controle rigoroso sobre a sociedade norte-coreana, além de ser um personagem controverso na política internacional, especialmente devido ao seu programa nuclear e às tensões com os Estados Unidos e outros países. Sua liderança é marcada por uma forte propaganda estatal e pela repressão de dissidência.
Resumo
Kim Jong Un foi reeleito na Coreia do Norte com 99,93% dos votos, gerando questionamentos sobre a legitimidade do processo eleitoral no país. As eleições, frequentemente criticadas como uma farsa, oferecem aos cidadãos a opção de votar apenas em Kim ou deixar um voto em branco, sem verdadeira liberdade de escolha. Com uma população votante estimada em 25 milhões, a quantidade mínima de votos dissidentes levanta suspeitas sobre a manipulação eleitoral e a repressão à dissidência. Críticos argumentam que a baixa porcentagem de votos negativos serve para legitimar o regime, criando a ilusão de participação popular enquanto desvia a atenção de possíveis levantes. A situação na Coreia do Norte reflete um padrão observado em outros regimes autoritários, onde a manipulação de resultados eleitorais busca manter o controle e minimizar a oposição. Observadores internacionais ressaltam a importância de monitorar o que realmente constitui uma "democracia" e os direitos dos cidadãos, destacando que a verdadeira mudança política depende da capacidade da população de reivindicar suas vozes.
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