26/03/2026, 18:05
Autor: Ricardo Vasconcelos

Nos últimos anos, as relações geopolíticas entre os Estados Unidos, Israel e Irã se tornaram cada vez mais tensas, com a religião desempenhando um papel central na dinâmica de apoio popular e justificativa para ações políticas. Historicamente, a religião tem sido um dos motores mais eficazes para moldar opiniões e mobilizar massas, e atualmente, a instrumentalização dessa crença é evidenciada de forma preocupante em diversas frentes políticas. Especialistas em relações internacionais alertam que este fato pode ter impactos significativos na estabilidade regional e global.
No caso dos Estados Unidos, a administração atual tem se apoiado fortemente em narrativas religiosas para obter apoio de determinados segmentos da população. Intervenções em conflitos no Oriente Médio, frequentemente justificadas sob o pretexto de promover a democracia e proteger aliados, são historicamente envoltas em uma retórica que alude à "vontade divina", uma estratégia que ressoa particularmente bem entre os conservadores cristãos da nação. Essa abordagem é reforçada por líderes religiosos que encorajam a ideia de que a prosperidade da nação está diretamente ligada ao seu comportamento em relação a Israel, interpretando assim eventos internacionais como um teste de fé que deve ser abordado com ações poderosas e decisivas.
Em contraste, Israel também utiliza a religião como uma ferramenta de coesão social e legitimidade política. A identidade judaica está profundamente entrelaçada com a ideia de um Estado na Terra Santa, e a segurança nacional frequentemente é articulada em termos de sobrevivência religiosa e étnica. A narrativa de um povo escolhido por Deus e as promessas bíblicas são frequentemente utilizadas para justificar ações militares e políticas em relação a seus vizinhos, incluindo o Irã. A retórica política em torno da existência de uma ameaça existencial, especialmente em relação ao programa nuclear iraniano, é intensamente alimentada pela religião e tradição.
Por sua vez, o Irã se utiliza de uma forma de teocracia que encaixa a política nas doutrinas da religião islâmica xiita. O governo iraniano não hesita em apelar para o apoio popular por meio da elevação de temas religiosos e ao mesmo tempo apresentando um Jihad percebido como um caminho divinamente ordenado para resistir à opressão ocidental, especialmente a partir dos Estados Unidos e Israel. Essa narrativa de batalha espiritual é frequentemente utilizada para justificar ações militares e políticas que podem rejeitar normas internacionais e legitimar violências.
Além disso, a história religiosa compartilhada entre essas nações, que remonta a práticas culturais e de fé que datam de milênios, não deve ser ignorada. O conceito do mesmo Deus adorado sob diferentes versões religiosas – Judaísmo, Cristianismo e Islamismo – é um aspecto notável que, embora deveria promover um entendimento comum, frequentemente se transforma em uma linha de separação que leva a conflitos.
Os comentários de observadores internacionais salientam que a maneira como essas nações manipulam a religião pode ser vista como um ciclo vicioso onde as ações de um lado provocam reações do outro, escandalizando a realidade política por detrás de cada movimento. Os alertas sobre a forma como essas nações usam a religião para justificação de ações mais extremas, em muitos casos à custa de vidas humanas e de paz duradoura, se intensificam. A utilização da fé como um instrumento político pode ser advertida como uma prática que perpetua conflitos por gerações.
E mesmo que a religião seja um aspecto frequentemente usado para unificar e mobilizar pessoas, ela também pode ser um terreno fértil para divisões e extremismos, uma vez que as verdades absolutas e crença exacerbadas podem levar a polarizações.
Mais recentemente, alguns comentaristas têm se perguntado sobre quando outros grupos religiosos e líderes podem entrar nesta narrativa, com reflexões sobre como a religião poderia potencialmente ser uma influência unificadora em um cenário global mais harmonioso. Mas, por enquanto, tudo indica que a persistência da utilização da religião para fins geopolíticos continuará a moldar a natureza dos conflitos internacionais. A esperança de um futuro mais pacífico e colaborativo parece, na verdade, entredito por sombras de séculos de rivalidade motorizada por crenças e interesses distorcidos.
A manipulação contínua da fé como uma ferramenta de poder ilustra não apenas uma referência ao nosso passado, mas uma advertência sobre onde poderia nos levar no futuro se as lições não forem aprendidas e se uma mudança de atitude em relação à interpretação do papel da religião nas relações de estado não for promovida.
Fontes: The New York Times, BBC News, The Guardian, Al Jazeera
Resumo
Nos últimos anos, as relações entre Estados Unidos, Israel e Irã têm se tornado cada vez mais tensas, com a religião desempenhando um papel central na dinâmica política. Especialistas alertam que a instrumentalização da fé pode impactar a estabilidade regional e global. A administração dos EUA utiliza narrativas religiosas para justificar intervenções no Oriente Médio, especialmente entre conservadores cristãos, que acreditam que a prosperidade do país está ligada ao seu apoio a Israel. Israel, por sua vez, utiliza a religião para legitimar sua segurança nacional, articulando sua identidade judaica com a sobrevivência religiosa. O Irã, com sua teocracia islâmica xiita, apela para a religião para mobilizar apoio popular e justificar ações militares contra o Ocidente. A história religiosa compartilhada entre essas nações, embora possa promover entendimento, frequentemente gera conflitos. Observadores internacionais destacam que a manipulação da religião por essas nações perpetua um ciclo vicioso de violência, levantando preocupações sobre o futuro das relações internacionais e a necessidade de uma nova abordagem na interpretação do papel da religião na política.
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