02/05/2026, 18:02
Autor: Ricardo Vasconcelos

A ideia de que o poder do dólar americano é exclusivamente derivado do petrodólar, um conceito geopolítico enraizado que sugere que o petróleo é a força vital da moeda, vem se mostrando cada vez mais contestada à luz de novas análises econômicas e históricas. Recentemente, economistas têm apontado que a realidade do comércio internacional e a circulação da moeda são influenciadas por uma complexa teia de fatores que vão muito além das transações relacionadas ao petróleo. O macroeconomista Joeri Schasfoort, em suas apresentações, refuta a noção de que o dólar deve sua hegemonia ao petróleo, destacando aspectos cruciais que desafiam essa crença.
Um dos principais pontos levantados é que a suposta exigência de que o petróleo seja negociado apenas em dólares foi um equívoco histórico. Documentos desclassificados revelam que a famosa negociação de 1974 entre os EUA e a Arábia Saudita, que supostamente selou o destino do dólar como moeda padrão para o petróleo, não estabeleceu uma condição rígida e imutável. Ao invés disso, a preocupação dos EUA na época estava centrada na necessidade de estabilizar os preços do petróleo e garantir que as riquezas geradas por esse comércio fossem investidas no sistema financeiro americano. Com isso, os sauditas continuaram a negociar em outras moedas, como a libra esterlina, durante muitos anos.
Outro argumento importante que emerge a partir da análise de Schasfoort é o tamanho do mercado global de petróleo em comparação com o setor de câmbio. Enquanto o comércio de petróleo movimenta cerca de 3 trilhões de dólares por ano, o mercado global de moeda opera com quase 10 trilhões de dólares diariamente. Essa discrepância sugere que o petróleo, embora seja um recurso valioso, representa apenas uma fração do comércio total em moeda e, portanto, não é a única razão pela qual o dólar mantém sua força no sistema financeiro mundial.
Além disso, o panorama do petróleo e da economia global está mudando. Os Estados Unidos, que historicamente eram os maiores compradores de petróleo do mundo, evoluíram para se tornarem um exportador significativo. Essa transformação torna obsoleta a lógica de que o dinheiro gerado pelo petróleo é essencial para financiar as importações americanas. Portanto, mesmo que países produtores decidam se afastar do dólar em suas transações petrolíferas, isso não implicaria necessariamente no colapso da moeda americana. Em vez disso, muitos economistas afirmam que os mercados financeiros e a sólida estrutura econômica dos EUA proporcionam um ambiente seguro e atraente para investimentos globais, muito além da questão do petróleo.
Os receios de que a venda massiva de títulos da dívida americana por produtores de petróleo como a Arábia Saudita ou o Irã levaria os EUA a uma crise financeira são, segundo os especialistas, fundamentalmente infundados. Na verdade, países como Japão e Reino Unido possuem volumes de dívida americana muito superiores aos de nações ricas em petróleo, indicando que a saúde da economia americana está, de facto, sustentada na confiança no mercado financeiro do país e não apenas nas transações de petróleo.
A concepção errônea acerca do petrodólar e seu impacto no dólar americano não só promove desinformação, mas também pode influenciar políticas econômicas e decisões financeiras em um nível global. Com os continentes cada vez mais conectados, as nações devem reavaliar suas alianças e a maneira como operam dentro do sistema financeiro global, reconhecendo que a economia moderna demanda uma visão mais holisticamente integrada e menos dependente de mitos que não refletem a realidade complexa do comércio e da moeda.
Assim, ao refletirmos sobre a atual dinâmica econômica, é vital entender que a posição do dólar não é garantida apenas por acordos de longo prazo relacionados ao petróleo. Para a sua sobrevivência e crescimento, o dólar dependerá cada vez mais do fortalecimento da confiança nas instituições financeiras dos EUA, da diversificação das relações comerciais e da capacidade do país em se manter à frente das tendências globais que moldam a economia. O diálogo sobre o petrodólar e sua influência deve, portanto, transcender as narrativas simplistas e buscar construir uma compreensão mais precisa e fundamentada sobre as forças que realmente governam a economia global contemporânea.
Fontes: Folha de São Paulo, The Economist, Financial Times
Resumo
A ideia de que o poder do dólar americano se baseia exclusivamente no petrodólar está sendo contestada por novas análises econômicas. O macroeconomista Joeri Schasfoort argumenta que a hegemonia do dólar é influenciada por diversos fatores além das transações de petróleo. Documentos históricos mostram que a negociação de 1974 entre os EUA e a Arábia Saudita não estabeleceu uma condição rígida para que o petróleo fosse negociado apenas em dólares, com os sauditas continuando a usar outras moedas. Além disso, o mercado de petróleo, que movimenta cerca de 3 trilhões de dólares por ano, é pequeno em comparação ao mercado de câmbio, que opera com quase 10 trilhões de dólares diariamente. A transformação dos EUA de importador para exportador de petróleo também desafia a lógica do petrodólar. Especialistas afirmam que a saúde da economia americana está mais ligada à confiança no mercado financeiro do que às transações de petróleo. Assim, a compreensão do papel do dólar deve ir além de mitos, reconhecendo a complexidade do comércio e da moeda na economia global.
Notícias relacionadas





