16/03/2026, 20:34
Autor: Laura Mendes

Em um movimento significativo para a proteção do público jovem na internet, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) apresentou um decreto do ECA Digital, que traz novas regras para a navegação digital de crianças e adolescentes. A legislação se concentra na proibição da rolagem infinita de conteúdo, autoplay de vídeos e no controle de notificações que apelam emocionalmente, que muitas vezes influenciam o comportamento de compra dos usuários, principalmente os mais jovens. A medida surge em um contexto onde o acesso à internet é cada vez mais comum entre crianças e adolescentes, mas também tem trazido receios sobre a exposição a conteúdos inadequados.
A nova regulamentação é vista como uma resposta necessária ao aumento da exposição de jovens a conteúdos potencialmente prejudiciais, uma preocupação que se intensificou à medida que o uso da internet se tornou uma parte integral da vida cotidiana. Com a implementação destas restrições, espera-se criar um ambiente digital mais seguro, essencialmente filtrando conteúdos e limitando o tempo que os jovens podem gastar em plataformas que utilizam estratégias de engajamento como a rolagem infinita e o autoplay, que são frequentemente criticados por encorajar o consumo não controlado de conteúdo.
Entretanto, a proposta gerou diversas reações, incluindo preocupações sobre a implementação e fiscalização da lei. Muitos comentadores questionam a capacidade do governo de monitorar a aplicação dessa nova legislação entre milhares de sites e plataformas. Embora as grandes empresas de tecnologia estejam sob maior escrutínio, com exigências de verificar a idade dos usuários, como demonstrado por recentes iniciativas que incluem a checagem de idade por meio de fotos, o desafio de fiscalizar pequenos sites e aplicativos é considerado quase impossível. Há um consenso de que, sem um plano claro para fiscalização, a eficácia da nova lei pode ser severamente afetada.
Além do desafio da implementação, há quem teme que essa legislação possa se tornar apenas mais um exemplo de uma política que não é efetivamente aplicada. A história recente do governo demonstra uma tendência de criar leis que, após sua publicação, são rapidamente ignoradas. A possibilidade de que o ECA Digital também enfrente esse destino gerou ceticismo entre especialistas e cidadãos, que apontam para um ciclo de promessas não cumpridas em várias áreas de regulação na internet.
Outra preocupação expressa nas discussões aponta para a noção de que, ao exigir um controle tão rígido sobre as informações pessoais, as empresas possam utilizar essa situação para estabelecer um maior controle sobre os dados dos usuários. Por exemplo, a aprovação de restrições à privacidade pode ser vista como uma oportunidade para empresas tecnológicas, como a Meta, fortalecerem sua presença no mercado, implementando soluções que, embora prometam proteger a juventude, podem, ao mesmo tempo, comprometer a privacidade dos usuários.
A fiscalização da proteção infantil na internet é um tema que ganhou novos contornos com o avanço das tecnologias digitais. Especialistas em segurança digital defendem que a população jovem deve ser educada para navegar de forma segura na web, embora muitos reconheçam que a responsabilidade maior recai sobre os adultos. Com a nova legislação, surge uma expectativa de que pais e responsáveis se envolvam ativamente na supervisão do uso da internet pelos jovens, em um esforço coletivo para garantir uma experiência online mais saudável.
Por fim, o debate sobre a proibição de conteúdo emocionalmente apelativo também destaca uma discussão maior sobre as práticas de marketing na internet, que muitas vezes exploram a vulnerabilidade emocional dos consumidores. Essa prática, que é comum em lojas virtuais, levanta questões sobre a ética na publicidade e na comunicação digital, especialmente quando direcionada a um público juvenil.
Com a implementação do ECA Digital, o Brasil se posiciona como um dos países que buscam regular a internet, mas isso também traz à tona questões cruciais sobre como equilibrar proteção e privacidade. A dialogicidade entre a proteção infantil e o respeito à liberdade online continua a ser um ponto de tensão, e a sociedade será desafiada a encontrar soluções que respeitem ambos os lados dessa complexa equação na era digital.
Fontes: Folha de São Paulo, G1, Estadão, TechCrunch
Detalhes
O Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) é um órgão do governo brasileiro responsável por formular e monitorar políticas públicas voltadas à proteção dos direitos de crianças e adolescentes. Criado em 1990, o CONANDA atua em várias áreas, incluindo educação, saúde e proteção contra abusos, buscando garantir que as diretrizes da Convenção sobre os Direitos da Criança sejam respeitadas no Brasil.
Resumo
O Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) apresentou um decreto do ECA Digital, estabelecendo novas regras para a navegação de crianças e adolescentes na internet. As diretrizes proíbem práticas como rolagem infinita de conteúdo e autoplay de vídeos, visando proteger os jovens de conteúdos inadequados e influências emocionais que podem afetar seu comportamento de compra. A medida surge em um contexto de crescente preocupação com a exposição dos jovens a riscos online. No entanto, a proposta gerou debates sobre a viabilidade da fiscalização, com especialistas questionando a capacidade do governo de monitorar a aplicação da lei em uma vasta gama de plataformas. Além disso, há receios de que a legislação possa ser apenas mais uma política não efetivamente aplicada, e que o controle sobre informações pessoais possa ser explorado por empresas tecnológicas. A discussão sobre a ética na publicidade e a proteção da privacidade dos usuários também é central, à medida que o Brasil busca equilibrar a proteção infantil com a liberdade online.
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