28/03/2026, 15:27
Autor: Laura Mendes

No Brasil, a dificuldade de acesso a tratamentos de saúde se torna um tema recorrente, especialmente quando se trata de pacientes com doenças crônicas terminais. Em meio a essa realidade, os cuidados paliativos têm sido objeto de discussões fervorosas, uma vez que visam promover a qualidade de vida dos enfermos, aliviando sintomas e proporcionando suporte emocional em momentos delicados. Este é o contexto enfrentado por muitas pessoas, como Lúcia Alves, uma jornalista de 60 anos, que luta contra o câncer e recentemente optou por buscar cuidados paliativos em seu tratamento.
Lúcia, que teve o diagnóstico de câncer de mama aos 47 anos, passou por um longo caminho de tratamentos e remissões. Após onze anos, sua batalha contra a doença enfrentou um novo revés com a descoberta de metástases. Embora conheça bem os medicamentos que precisa e os complexos trâmites legais para acessar tratamentos de custo elevado, como o Trastuzumabe deruxtecana, ela buscou um caminho alternativo: os cuidados paliativos. No hospital onde é tratada, Lúcia foi rapidamente encaminhada a uma equipe especializada, que não apenas se dedica a prolongar a vida, mas também a melhorar a qualidade daquele tempo.
Apesar de um acesso mais estruturado nos hospitais privados, o Sistema Único de Saúde (SUS) ainda lida com uma realidade desafiadora. Os recursos escassos e a dificuldade de se manter equipes multidisciplinares dedicadas ao alívio dos sintomas em pacientes não terminais refletem uma crise mais ampla no sistema de saúde. A escassez de recursos não apenas limita tratamentos que poderiam aliviar o sofrimento, mas também torna os cuidados paliativos um privilégio de poucos, relegados a pacientes que se encontram em estágios avançados da doença. Essa situação é um reflexo da luta desigual que muitos enfrentam e revela um paradoxo preocupante: a ausência de um suporte extra para aqueles que, como Lúcia, ainda buscam tratamento e qualidade de vida.
Especialistas em saúde pública argumentam que o investimento em cuidados paliativos poderia, a longo prazo, levar a uma alocação mais eficiente dos recursos disponíveis no SUS. Ao invés de encarar a dedicação a cuidados paliativos como uma perda de tempo ou recursos, muitos defendem que esse enfoque poderia, de fato, oferecer um alívio significativo não só para os pacientes, mas também para os serviços de saúde, ao evitar complicações e hospitalizações desnecessárias. No entanto, essa proposta de mudança depende de uma reavaliação sistemática das prioridades na saúde pública brasileira.
Profissionais de saúde que atuam na área relatam diariamente a dureza do trabalho em ambientes limitados, frequentemente abandonados pelo estado. Comentários de ex-funcionários de hospitais públicos ressaltam a dificuldade de oferecer cuidados adequados dentro de um sistema que clama por mais recursos e suporte. Mesmo com boas intenções, a implementação de cuidados paliativos se torna muitas vezes uma tarefa árdua, onde os padrões de atendimento estabelecidos em teoria se chocam com a realidade do dia a dia dos hospitais.
Para além da questão estrutural, a implementação adequada de cuidados paliativos exige também uma mudança cultural. A percepção de que esses cuidados devem ser reservados apenas para casos terminais precisa ser alterada. A possibilidade de tratamento integral deve contemplar também aqueles que lidam com doenças crônicas, mesmo enquanto se buscam curas. Ao oferecer cuidados paliativos de forma precoce, há um potencial imenso de promover um tratamento mais humano e digno, onde o foco supera a mera extensão da vida e se volta para a qualidade da mesma.
Muitos pacientes, assim como Lúcia, desejam continuar suas batalhas em busca de cura enquanto também têm suas necessidades de conforto e suporte adequadamente atendidas. A luta por mudanças no sistema de saúde é crucial para que possam continuar suas vidas com dignidade em meio à adversidade. É essencial que, como sociedade, se busquem soluções e reformas que garantam não apenas o acesso a tratamentos, mas também a capacidade de reconhecer a importância dos cuidados paliativos como um componente fundamental e já necessário no cuidado integral da saúde no Brasil.
A discussão sobre a desigualdade de acesso aos cuidados paliativos no Brasil precisa ser acolhida com mais seriedade e proatividade, considerando não apenas os números, mas as vidas que estão em jogo. Com a crescente conscientização sobre a importância desses cuidados, é possível que, no futuro, mais pessoas tenham a oportunidade de enfrentar sua batalha contra o câncer com a dignidade que merecem, com acesso ao tratamento que promove qualidade de vida e conforto, independentemente de sua condição socioeconômica.
Fontes: Folha de São Paulo, Organização Mundial da Saúde (OMS), Ministério da Saúde do Brasil
Resumo
No Brasil, o acesso a tratamentos de saúde, especialmente para pacientes com doenças crônicas terminais, é um tema preocupante. Os cuidados paliativos, que visam melhorar a qualidade de vida e aliviar sintomas, têm ganhado destaque, como exemplificado pela história de Lúcia Alves, uma jornalista de 60 anos que, após anos de tratamento contra o câncer, optou por essa abordagem. Apesar de avanços nos hospitais privados, o Sistema Único de Saúde (SUS) ainda enfrenta desafios significativos, com recursos escassos e dificuldade em manter equipes multidisciplinares. Especialistas defendem que investir em cuidados paliativos poderia otimizar os recursos do SUS e aliviar a pressão sobre os serviços de saúde. No entanto, essa mudança requer uma reavaliação das prioridades na saúde pública e uma transformação cultural em relação ao entendimento dos cuidados paliativos. Muitos pacientes desejam continuar suas lutas por cura, enquanto recebem suporte e conforto, ressaltando a necessidade de reformas que garantam acesso a tratamentos dignos e humanos.
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