20/02/2026, 20:54
Autor: Felipe Rocha

A ciência brasileira vive um momento de destaque, amplificado pela recente conquista da microbiologista Mariangela Hungria, da Embrapa, que recebeu o World Food Prize em 2025 por suas inovações na área da agricultura. Após mais de quatro décadas de pesquisa e desenvolvimento, Hungria conseguiu criar bactérias que fixam nitrogênio diretamente do ar nas raízes de plantas, principalmente na soja. Essa descoberta não apenas revoluciona a maneira como se produz alimento, mas também promove uma significativa economia para os agricultores, que há anos enfrentam os altos custos dos fertilizantes nitrogenados, essenciais para a produtividade das culturas.
A inovação se baseia em inoculantes biológicos que possibilitam uma redução substancial da dependência de insumos químicos, que além de onerosos, são prejudiciais ao meio ambiente. Estudos demonstram que essa tecnologia poderia substituir até 80% dos fertilizantes industriais atualmente utilizados por agricultores, gerando uma economia anual estimada em bilhões de reais, além de minimizar as emissões de dióxido de carbono associadas à produção desses fertilizantes. Este avanço não apenas eleva a produção agrícola do Brasil a um novo patamar, mas também posiciona o país como referência mundial na fixação biológica de nitrogênio, mostrando que a pesquisa científica pode causar impactos diretos e positivos na segurança alimentar global.
Entretanto, não se pode ignorar os desafios que ainda permeiam o setor agrícola brasileiro. Muitos ressaltam que, embora a tecnologia e a pesquisa sejam fundamentais, a estrutura agrária do país é marcada pela concentração de terras e riqueza nas mãos de poucos mega latifundiários. Esse paradigma apresenta sérias questões sociais e econômicas, e há um clamor crescente por uma reavaliação das políticas públicas que promovem uma maior inclusão e um desenvolvimento mais igualitário.
A relação entre os grandes produtores agrícolas e os centros de pesquisa é muitas vezes tensa. Um comentário destaca a frustração com a maneira como as inovações são muitas vezes aproveitadas para garantir lucros exorbitantes a poucos, sem que a maioria dos pequenos agricultores se beneficie dos avanços tecnológicos que surgem das pesquisas mais modernas. Há uma percepção de que as iniciativas científicas, embora promissoras, não são suficientemente direcionadas para um desenvolvimento que atenda às demandas dos pequenos proprietários que formam a base da produção rural.
Ademais, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento agrícola são frequentemente questionados em sua eficácia, especialmente quando se considera que os lucros gerados no setor agropecuário resultam em um aumento da desigualdade social. Os críticos apontam que, enquanto o Brasil continua a se especializar na produção de commodities agrícolas, o país carece de um plano coeso de industrialização que beneficie a todos, não apenas aqueles que já dominam o mercado.
Além disso, a questão do acesso à educação é levantada em discussões que envolvem o desenvolvimento rural. Comentários sobre a necessidade de maior inclusão das mulheres na pesquisa e na vida política ressaltam que a diversidade de ideias e experiências pode atuar como um motor para inovações ainda mais significativas. Imagine se as mulheres tivessem sempre tido acesso igual à educação e aos processos decisórios ao longo da história — a perspectiva levantada é que o potencial criativo e inovador da sociedade seria amplamente ampliado.
Em conjunto, esses elementos revelam que a ciência no Brasil possui um potencial transformador, mas este precisa ser acompanhado por uma estrutura política que viabilize sua implementação de forma abrangente. A combinação de um setor agrícola mais sustentável, com práticas de cultivo que diminuem a dependência de insumos químicos e uma abordagem social mais equitativa, são passos necessários em direção à construção de um futuro mais próspero e justo.
Neste contexto, é essencial que a Embrapa, uma das instituições mais importantes do país quando se trata de pesquisa agrícola, assuma um papel protagonista não apenas em inovações, mas também no suporte à pequena agricultura, ajudando a criar um ambiente em que a pesquisa científica beneficie todos os produtores, especialmente aqueles que trabalham para garantir a segurança alimentar do Brasil e do mundo.
Enquanto a tecnologia avança e novas descobertas surgem, é fundamental que as vozes que clamam por uma maior justiça social e econômica no campo sejam ouvidas e consideradas, garantindo que o progresso científico não apenas se traduza em lucros, mas em um futuro melhor para todos os brasileiros. Assim, o investimento em pesquisa científica deve continuar a ser uma prioridade, pois ao capacitar os agricultores e inventores do amanhã, o Brasil poderá finalmente alcançar um padrão de desenvolvimento que beneficie e eleve toda a sociedade.
Fontes: Folha de São Paulo, Estadão, O Globo
Detalhes
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) é uma instituição pública vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, focada em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias para a agricultura brasileira. Fundada em 1973, a Embrapa desempenha um papel crucial na inovação agrícola, promovendo a sustentabilidade e a competitividade do setor agropecuário. A instituição é reconhecida por suas contribuições significativas à pesquisa em biotecnologia, melhoramento genético e práticas agrícolas sustentáveis.
Resumo
A ciência brasileira se destaca com a microbiologista Mariangela Hungria, da Embrapa, vencedora do World Food Prize 2025 por suas inovações na agricultura. Após 40 anos de pesquisa, ela desenvolveu bactérias que fixam nitrogênio nas raízes das plantas, especialmente na soja, reduzindo a dependência de fertilizantes químicos caros e prejudiciais ao meio ambiente. Essa tecnologia pode substituir até 80% dos fertilizantes industriais, gerando economias significativas e diminuindo as emissões de CO2. No entanto, o setor agrícola enfrenta desafios, como a concentração de terras e a desigualdade social. Críticos apontam que as inovações beneficiam poucos grandes produtores, enquanto pequenos agricultores ficam à margem. Além disso, há um apelo por maior inclusão das mulheres na pesquisa e na política, ressaltando a importância da diversidade para inovações. A Embrapa deve assumir um papel central na promoção de uma agricultura sustentável e no apoio aos pequenos produtores, garantindo que os avanços científicos contribuam para a segurança alimentar e um desenvolvimento mais equitativo no Brasil.
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