14/01/2026, 14:37
Autor: Ricardo Vasconcelos

Em meio a uma crescente crise global, os aliados estratégicos da Rússia estão expressando descontentamento com sua liderança, ao perceberem que o apoio moscovita não se materializou na medida em que esperavam. À medida que o presidente Vladimir Putin concentra suas atenções na guerra na Ucrânia, nações que anteriormente se beneficiavam de laços estreitos com Moscou estão se sentindo abandonadas, enfrentando crises internas e inseguranças que suas relações com a Rússia não conseguiram mitigar.
A reportagem da Bloomberg News destaca que, na Venezuela, por exemplo, oficiais governamentais agora vêem sua relação de segurança com Moscou como um "tigre de papel". Com a prisão de Nicolás Maduro em Nova York, muitos se perguntam se o Kremlin, que era visto como um importante aliado, realmente cumpriu seu papel na segurança do regime. As expectativas de assistência militar e política que anteriormente sustentavam a confiança agora parecem um eco distante, alimentando preocupações sobre a sobrevivência da liderança em Caracas.
A situação não é única da Venezuela. Regimes autoritários ao redor do mundo, que antes eram amigos próximos de Moscou, também estão notando esse desinteresse. Em Damasco, o ditador Bashar al-Assad sentiu o impacto da redução do apoio russo durante os momentos críticos de sua luta pela sobrevivência política. A relação que uma vez foi considerada sólida agora é vista com desconfiança, à medida que os símbolos de amizade se transformam em sinais de abandono. Assad, que buscou refúgio em Moscou em tempos de crise, se vê agora rodeado por uma incerteza que o Kremlin não está em posição de dissipar.
De forma semelhante, o Irã enfrenta um cenário convulso. Sob o regime do Ayatollah Ali Khamenei, o país tem lidado com protestos em massa e um contexto de ameaças militares crescentes dos Estados Unidos. A esperança de que a Rússia poderia qualquer dia intervir de forma significativa para garantir sua segurança agora se tornou motivo de frustração, à medida que o apoio militar se mostra inconsistente. O líder supremo, que por muito tempo contou com a Rússia como um aliado chave, observa com ansiedade como os outros investimentos em relações internacionais estão se desenrolando.
Os impactos desta dinâmica estão ecoando até em Cuba, que se encontra em meio a uma crise humanitária sem um "benfeitor" que possa oferecer assistência tangível. Enquanto os cubanos lutam para lidar com a escassez de recursos e os efeitos devastadores da pobreza, a falta de suporte russo na hora mais crucial gera um sentimento de traição. O regime cubano, que sempre teve na Rússia um aliado, agora precisa reavaliar suas estratégias diante da falta de apoio.
A questão central que emerge dessa narrativa complexa é a percepção de que as aliança tradicionais e os pactos de defesa estão se tornando obsoletos. Especialistas em relações internacionais analisam como a política externa da Rússia e sua abordagem beligerante podem ter consequências imprevistas não apenas para seus oponentes, mas também para aqueles que foram considerados amigos. O que se observa é uma mudança nas expectativas e na forma como os países se relacionam, buscando cada vez mais acordos que garantam seus interesses em um cenário global cambiante.
Além disso, como um elemento de debate crescente, a comparação entre a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO) e a OTAN revela uma fissura nas percepções sobre segurança. Enquanto a OTAN se destaca por uma abordagem mais isolacionista, a CSTO apresenta uma inclinação internacionalista que visa a integração global. No entanto, essa comparação não alivia a frustração dos aliados da Rússia, que se sentem cada vez mais desprotegidos enquanto se esforçam para compreender a dinâmica da política externa russa sob a administração de Putin.
Nesse clima de incerteza, uma pergunta se destaca: até que ponto o verdadeiro caráter das relações internacionais pode ser redefinido, à medida que alianças são revistas e reavaliadas? A realidade atual sugere que a confiança nos acordos diplomáticos e militares estabelecidos pode não ser mais suficiente para garantir o futuro dos regimes que se alicerçam em-laços tão instáveis com a Rússia. Portanto, o que antes parecia um apoio inabalável pode revelar-se vulnerável em tempos de crise. É preciso uma abordagem mais pragmática e realista das relações externas, que considere não apenas alianças tradicionais, mas também interesses bilaterais que atendam ao pragmatismo político de cada nação.
Fontes: Bloomberg News, Folha de São Paulo
Detalhes
Vladimir Putin é o presidente da Rússia, conhecido por sua política autoritária e por ter consolidado seu poder ao longo de duas décadas. Ele tem sido uma figura central em diversas crises internacionais, incluindo a anexação da Crimeia em 2014 e a invasão da Ucrânia em 2022. Putin é frequentemente criticado por sua abordagem beligerante nas relações exteriores e por sua repressão a dissidentes internos.
Nicolás Maduro é o presidente da Venezuela, tendo assumido o cargo em 2013 após a morte de Hugo Chávez. Seu governo tem sido marcado por uma profunda crise econômica e social, além de alegações de violação de direitos humanos. Maduro enfrenta forte oposição interna e pressões internacionais, sendo frequentemente acusado de autoritarismo e corrupção.
Bashar al-Assad é o presidente da Síria, no poder desde 2000. Seu governo é amplamente conhecido por sua brutal repressão durante a guerra civil síria, que começou em 2011. Assad tem contado com o apoio da Rússia e do Irã para manter seu regime, mas enfrenta crescente desconfiança e desafios à sua liderança.
Ayatollah Ali Khamenei é o líder supremo do Irã desde 1989. Ele exerce um controle significativo sobre a política iraniana, incluindo as forças armadas e a política externa. Khamenei tem sido um crítico feroz dos Estados Unidos e um defensor do regime teocrático do Irã, enfrentando desafios internos, incluindo protestos contra seu governo.
A CSTO é uma aliança militar formada por vários países da ex-União Soviética, incluindo Rússia, Armênia, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão. Criada em 2002, a CSTO visa garantir a segurança coletiva e a cooperação militar entre os Estados membros, embora sua eficácia e relevância tenham sido questionadas, especialmente em comparação com a OTAN.
Resumo
A crescente crise global tem gerado descontentamento entre os aliados estratégicos da Rússia, que sentem que o apoio de Moscou não se concretizou como esperavam. Com o foco do presidente Vladimir Putin na guerra na Ucrânia, países como Venezuela, Síria e Irã, que antes contavam com a Rússia como um aliado forte, agora se veem abandonados em meio a crises internas. Na Venezuela, a relação de segurança com Moscou é considerada um "tigre de papel", especialmente após a prisão de Nicolás Maduro. Em Damasco, Bashar al-Assad também percebe a redução do apoio russo como uma ameaça à sua sobrevivência política. O Irã, sob o regime do Ayatollah Ali Khamenei, enfrenta protestos e sente a frustração com a inconsistência do suporte militar russo. Cuba, por sua vez, lida com uma crise humanitária sem o auxílio russo. Especialistas destacam que as alianças tradicionais estão se tornando obsoletas, e a confiança nos acordos diplomáticos e militares pode não ser mais suficiente para garantir a segurança dos regimes que dependem da Rússia.
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