27/02/2026, 11:19
Autor: Ricardo Vasconcelos

O cenário geopolítico no Afeganistão passou a ser uma complexa vitrine de rivalidades regionais, especialmente entre Paquistão e Índia, após a ascensão do Talibã ao poder. Durante a última década, a relação entre esses três países tem se tornado cada vez mais intrincada, refletindo antigas disputas territoriais e a luta pela influência no que muitos consideram um território estratégico que, no entanto, parece desafiar a dominação externa. Em meio a conversas sobre uma suposta "colônia" indiana, as tensões entre o Paquistão e o Talibã revelam uma nova dinâmica que preocupa observadores internacionais e especialistas em segurança.
Historicamente, o Paquistão sempre teve motivos para temer que a Índia e o Afeganistão se unissem contra ele. A animosidade que os dois países compartilham em relação ao Paquistão se estende por décadas, envolvendo disputas territoriais que remontam à divisão subcontinente e que persiste até hoje. O temor de que ambos se tornassem aliados ao ponto de invadir o Paquistão jamais se dissipou, levando Islamabad a apoiar o Talibã como uma contrapeso regional. O apoio à milícia, que se autodenomina o legítimo representante do povo afegão, foi uma estratégia para evitar a formação de um bloco unificado que poderia ameaçar a integridade territorial do Paquistão.
Contudo, com o Talibã agora no auge do poder, a situação se complica à medida que o nacionalismo Pashtun dentro do Afeganistão se intensifica, promovendo reivindicações territoriais que se estendem ao lado paquistanês da fronteira. Observadores de segurança expressam preocupação com a possibilidade do Talibã, uma vez consolidado como o governo afegão, vir a criar um conflito mais amplo, em busca de expandir suas fronteiras em detrimento do Paquistão. O desdobramento sugere que Islamabad pode estar voltando à estaca zero, enfrentando uma nova onda de insegurança na região, que contraria seus objetivos de estabilização.
Uma questão que se impõe sobre as relações entre Índia e Paquistão é a militarização da região, particularmente a possibilidade de que a Índia, conformando-se à situação, forneça armas e suprimentos ao governo talibã. Isso levantaria um ciclo perigoso em que o Paquistão responderia à crescente influência militar indiana na fronteira. A celebração antecipada do Paquistão pela vitória do Talibã pode ter sido prematura, ecoando agora na forma de incertezas e possíveis agendas antagônicas que não só comprometem a segurança do Paquistão, mas também desencadeiam análises sobre o apoio que o governo talibã realmente desfruta dentro da sociedade afegã.
Além disso, a narrativa de que o Afeganistão nunca foi uma colônia precisa ser examinada Minuciosamente. O país, ao longo da história, tornou-se um campo de batalha após tentativas de várias potências, incluindo britânicos, soviéticos e americanos, que falharam em impor um controle duradouro. Essa sucessão de tentativas frustradas fez com que o Afeganistão fosse visto como um estado de conquista quase impossível, porém a questão do seu status como um “vassalo” pode ser mais complexa do que parece. O Paquistão, ansioso por manipular a política afegã em seu benefício, parece agora se deparar com as consequências de um apoio que foi benéfico no curto prazo, mas que resulta em uma dinâmica de potência adversa a longo prazo.
Observadores apontam que, enquanto o Paquistão se posicionou como um jogador importante no tabuleiro de xadrez da política afegã, a sua interação com o Talibã pode ser vinculada a um duplo jogo. Quando o governo democrático apoiado pelos EUA foi sacrificado pela fúria do Talibã, é possível que Islamabad hasse mais interesse em criar um governo que se alinhasse com suas próprias ideologias do que um Afeganistão verdadeiramente independente. Inicialmente, o Paquistão celebrou a ascensão do Talibã, crendo que eles seriam fáceis de controlar. Contudo, essas expectativas podem já estar se desvanecendo à medida que a narrativa de um Afeganistão “coloniado” pela Índia ganha tração entre analistas e críticos.
Nesse emaranhado de poder e controle, uma verdade incômoda se destaca: a geopolítica no Afeganistão nunca foi, e provavelmente nunca será, simples ou linear. Cada passo dado por uma nação ante as outras é meticulosamente analisado pelos mais altas esferas do poder, criando um deleite de movimentos e contramovimentos que não somente vão alterar a configuração do Afeganistão, mas podem ressoar em todas as regiões adjacentes. Com a imprevisibilidade da política da região se intensificando, observa-se que o verdadeiro desafio não é apenas a liberdade afegã, mas a segurança e integridade do Paquistão em meio a disputas territoriais que parecem eternamente fracassadas.
Fontes: BBC News, Al Jazeera, The Guardian, Foreign Affairs, The New York Times
Resumo
O cenário geopolítico no Afeganistão se tornou uma vitrine de rivalidades entre Paquistão e Índia após a ascensão do Talibã. A relação entre esses países tem se tornado cada vez mais complexa, refletindo disputas territoriais históricas e a luta pela influência em um território estratégico. O Paquistão tem temido uma aliança entre Índia e Afeganistão, levando a um apoio ao Talibã como contrapeso regional. Com o Talibã no poder, o nacionalismo Pashtun se intensifica, gerando preocupações sobre possíveis reivindicações territoriais que poderiam ameaçar o Paquistão. A militarização da região também é uma preocupação, com a possibilidade de a Índia fornecer armas ao Talibã, o que poderia desencadear um ciclo de insegurança. O Paquistão, que inicialmente celebrou a vitória do Talibã, agora enfrenta incertezas sobre o apoio que o governo talibã realmente tem entre os afegãos. A narrativa de que o Afeganistão nunca foi uma colônia deve ser reavaliada, pois o país tem sido um campo de batalha para potências estrangeiras. A geopolítica afegã é complexa e imprevisível, com implicações para a segurança do Paquistão.
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